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Noite Severina

Noite Severina – Foto: Evgeny Lushpin
Victória Farias

Vinte e sete minutos me separavam do centro da cidade. 

Vinte e sete preciosos minutos, que poderiam ser gastos de forma mais inteligente do que passando insistentemente as músicas no Spotify. Não para a minha surpresa e muito menos para o meu deleite, nenhuma delas me agradava. Estávamos parados naquele mesmo lugar, dividindo janela com o mesmo ônibus, há quase uma hora. Pela quarta vez esbarrei na mesma música. Alguém sibilou um xingamento para o motorista. Ele olhou no espelho. Franziu a testa e voltou a encarar religiosamente a propaganda colada no  ônibus à sua frente. Estávamos encurralados e o “desconto de 50% nos cursos de graduação EAD” parecia entretê-lo.

Vinte e sete minutos. Há alguns ele havia desligado o veículo. Era um sinal de desistência. Sem espaço para apelos ou indignações. Não havia diálogo. O ronco do motor, que nos fazia balançar levemente quase como um ninado e esquentava as pernas do motorista naquela tarde não era mais bem-vindo, nem no nosso ônibus, nem em nenhum outro.

Vinte e sete minutos. Sabia disso porque durante dois anos traçava o mesmo caminho, no mesmo horário, com as mesmas pessoas. Sabia quem ia descer, onde e como. E num consenso geral tácito, todos sentavam no mesmo lugar, todos dos dias. Não havia nome nas cadeiras, mas as almas pareciam flutuar acima dos assentos, como dementadores que atormentavam quem ousasse atravessar os desígnios do destino divino. 

Vinte e sete minutos. Era tempo suficiente para que alguma coisa acontecesse. Alguém poderia declarar uma guerra. Um país poderia incendiar-se. Uma vida poderia acabar e, em um ato desesperado, alguém poderia fazer a mais escandalosa das coisas, dizendo ser um ato de amor – seja ela qual for.  

São muitas as possibilidades para pouco tempo – pouco tempo para quem corre sempre contra o relógio; muito tempo para quem não tem para onde correr. Como para todo atrasado um segundo parecem horas, aqueles vinte e sete minutos poderiam igualar-se à uma eternidade.

Eu já nem contava mais há quanto tempo estávamos parados. Todos nós. A cidade toda. Parecia que há anos nenhum carro se movia. Até o vento estava estático. O calor poderia ser visto, quase tocado. Os meus óculos escuros ajudavam pouco na tarefa de impedir que os raios de sol atravessassem as minhas pupilas. A massa de ar quente percorria-nos de dentro para fora. Não havia vento frio vindo das janelas, e como se o mundo tivesse parado de girar, não havia vento nenhum.

Vinte e sete minutos e… para minha surpresa, sinto alguém tocando fortemente o meu ombro. Há tempos eu já havia chegado ao ponto final da rota. Aparentemente, o sonho dos vinte e sete minutos foi o resultado de uma péssima noite de sono, por conta de uma maratona de filmes de terror no dia anterior e uma pressa para chegar cedo ao trabalho.

Nota mental: (1) nada de filmes de terror depois das 18h. (2) procurar outra rota para o trabalho que leve menos do que vinte e sete minutos. 

Ponto.

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