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Suco de laranja

Suco de laranja – Foto: Pixabay
Leānder Quadragesimae

Às vezes eu me pergunto: como deve ser viver em outro corpo? Não me refiro aos pensamentos rápidos, que em momentos difíceis automaticamente nos fazem pensar na maior dificuldade do Luciano Hulk ou da Kim Kardashian (como se o dinheiro, a fama ou o sucesso fossem abrandar nossa angústia diante de nós mesmos). Porém, me refiro a ideia de viver em outro corpo sem a oportunidade que um dia nós tivemos de aprender o que já aprendemos. 

Talvez eu esteja escrevendo isso, porque a essa altura do tratamento terapêutico eu tenha percebido que há prazer em ser simplesmente quem eu sou. MAS, talvez seja porque é meramente curioso. Particularmente eu acredito que todos nós temos uma situação que molda e direciona nossos esforços na vida: seja relação com a mãe, uma infância turbulenta, ausência afetiva, gravidez, entre outros. Todavia, o que eu quero abordar aqui vai para além destes temas.

Já parou para pensar que seu corpo reage às diversas situações de acordo com o que você passou a vida toda aprendendo? Ou ao menos em concordância com algo minimamente conhecido? E o que você aprendeu? Não me refiro ao seu diploma, seu grau técnico, mas sim ao conhecimento tácito. O que você aprendeu sem ninguém dizer? Como seu braço reage quando alguém toca, repentinamente, a região da sua cintura? E se alguém for extremamente grosso com você: você chora ou retruca? se você beber algo com lactose você passa mal, ou vive um dia tranquilo?

Pensemos: pela oportunidade que Marcelo teve de visualizar Joaquim (seu avô) colher Laranjas pesadas, com cascas lisas e macias – são as melhores para fazer suco – a vida de Marcelo seja mais aprazível. Não digo melhor que a minha ou a sua, mas para ele. Talvez, pela chance de Maria crescer ouvindo a mãe Ivina (deputada) no telefone, suas habilidades em oratória e pensamento estratégico se desenvolveram mais rápido. 

E como deve ser, por um dia, viver a vida de Marcelo? Será que ao viver a vida de Marcelo, eu vou começar a falar de boca cheia? Afinal, foi minha mãe que me ensinou a não falar de boca cheia. E a mãe do Marcelo? Será que ela ensinou isso para ele? Será que ela falava de boca cheia? E vivendo a vida de Maria, será que meu braço vai arrepiar toda vez que eu escutar Oceano do Djavan? Maria gosta de MPB? Ela ouvia um CD arranhado quando ela era criança? Porque eu sim. E se ela gosta, Oceano tem sentido para ela? 

Não escrevo este texto somente como um exercício imaginativo (também, porque é legal demais viver mil vidas em uma só). Mas porque eu acredito que há algo no não dito, na percepção, na observação, no encontro, no tato e no cheiro que nos fazem acessar lugares diversos. E às vezes o melhor lugar é o nosso.

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