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A conversa entre elas passava sempre pelo mesmo crivo: como andam os amiguinhos da internet? Aos sessenta anos, as três amigas se divertiam com as paqueras virtuais, aquelas com duração máxima de quinze dias, em média. Depois, tudo ia perdendo a graça e os amigos atuais se mostravam tão desinteressantes quanto os anteriores. Não estava sendo fácil. Muita gente, pouco interesse e uma chatice sem fim.

Aí era só esperar pelo final de semana, quando o tal do algoritmo permitia a invasão dos seus perfis, com novas fotos sorridentes e dezenas de pedidos de amizade, tanto de homens quanto de mulheres – de todos os tipos, gêneros, procedência, cor & credo, vivendo no Brasil ou fora dele. Até que era divertido!

Se houvesse fotos, amigos em comum e dados pessoais, as solicitações seriam aceitas. Caso contrário, recebiam um deletar e apenas pessoas com mais afinidades e mais dados complementares integrariam o time dos amigos. Um critério muito usado era o de amigos em comum, uma fraca segurança, mas ainda assim, melhor que nada.

Naquele almoço, depois de uma garrafa e meia de um bom malbec, ela resolveu contar sobre o seu caso, até então mantido em razoável discrição. Relatou alguns detalhes deliciosos. Mostrou fotos. Um coroa e tanto. Um encontro já vinha sendo programado e ela resolveu falar disto também. Dos planos. Num local neutro, nem lá nem cá. Em qual cidade seria? Ela muito ansiosa. O frio na barriga. E se tudo for um desastre? – E se tudo for uma maravilha – uma delas perguntou. Pense que pode ser bom, pode ser ótimo e se não for, f….-se!

– Olha, na nossa idade, tudo pode ser sempre melhor. Nada de muita exigência, amiga. Deixa acontecer! – Assim falou a rainha dos namoros pela internet. O seu amigo atual já durava mais de um ano. Vários encontros. Como viviam os dois na mesma cidade, jantares à luz de velas eram muito frequentes. Tudo bem romântico. Inclusive o sexo, surpreendentemente bom, muito bom! Ela adorava contar tudo, nos mínimos detalhes! E nós adorávamos aquelas histórias. Éramos sua plateia.

Depois do almoço e da sobremesa, o cafezinho na sala. 

Bom humor e leveza. Uma pergunta sai assim, naturalmente. – Qual é mesmo o nome do gato? – Ela diz nome e sobrenome. – Não acredito. Ricci, o mesmo sobrenome do meu finado marido. Nem você sabia, né? Veja só, será que seriam parentes? – Falou um pouco da origem paulista daquele sobrenome italiano, oriundo da região do Vêneto. O assunto foi e voltou várias vezes à Itália até que, finalmente o papo foi encerrado com chamados para o Uber.

Já passava das sete horas da noite quando as duas se foram. 

Um longo e demorado almoço mais que divertido, recheado de boas risadas. Comidinha boa, vinhozinho dos bons, sobremesa no capricho e a delícia do reencontro, mesmo em tempos de pandemia.

Ela não via a hora de contar pra ele a novidade recém-descoberta. 

Muita coincidência o mesmo sobrenome. Qual o tamanho da colônia italiana em Curitiba? Quantos milhões de italianos existem em São Paulo? Um deles, possivelmente um primo e marido (já falecido) de uma de suas amigas. O outro, ele, o quase namorado dela. Ou paquera? Ou crush? Seria o mesmo? 

Depois do banho, ela ligou. Contou toda a história do almoço. Dos sobrenomes. E ele foi se lembrando aos poucos. Sim. Houve um contato. O primo desejando reunir um grupo de pessoas com o mesmo sobrenome. Falaram-se algumas vezes. O grupo da família foi formado, mas como em todo grupo, alguns foram se distanciando. E, no final, ele pouco participava. 

Que coincidência. O mundo é mesmo muito pequeno. 

No outro dia, ela resolve preparar um risoto. Vai à dispensa procurar um pacote de champignons. Tira da prateleira e coloca sobre a bancada da pia. Procura uma tesoura pra cortar o pacote. E qual o nome do produto? Qual a marca? Ricci. Ah, não! É muita coincidência. Ela tem vontade de ligar de novo, mas se contém. Mais tarde é ele quem liga. Acionam a chamada de vídeo e com muita alegria, conversam. Animadamente, como sempre.

Ele afirmava que desde os primeiros contatos foram inúmeras as coincidências; aliás, ele disse, não são apenas coincidências. São sinais de imensa sincronicidade. – É o universo conspirando a nosso favor, você ainda não percebeu? – Veja quanta coisa temos vivido nestes poucos meses. A todo momento, uma coincidência. Um sinal me dizendo pra me aproximar ainda mais de você. Uma certeza absoluta de que não seremos apenas mais um caso de internet. 

– Ah, e uma boa notícia. Deu tudo certo por aqui e não vejo a hora de te encontrar. Chego na próxima quinta-feira, em BH. Me aguarde, princesa!       

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