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Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

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Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Resoluções

Resoluções – Foto: Pixabay
Tais Civitarese

O telefone toca sem parar um número desconhecido. Já é a terceira vez. Nada fará com que atenda, pois tem por princípio não deixar que as demandas alheias lhe roubem o pouco tempo matinal que possui. Olha para a tela que acende com um quê de desprezo. Ignora. Segue sentada na cozinha, imersa em sua leitura da crônica diária de Amália Fontes, sua colunista preferida do jornal.

O café ainda fumega na caneca, que abraça com as mãos para se aquecer. O relógio marca cinco para as oito. Doutor Patrício a verá às oito e trinta.

Lá fora, um martelete incansável rasga o silêncio com uma melodia seca e monótona, sem ritmo algum. Ela quase não escuta, pois está absorvida pelo texto que lê. Amália fala da morte, sobre como se reergueu após enviuvar aos trinta anos. A leitora, que nunca se casara, entende aquilo como um relato sobrenatural.

Calça os chinelos, dirige-se ao quarto. Troca de roupa. Um vestido longo e estampado cairá bem. Amarra uma echarpe em volta do pescoço. Enfia os pés em mocassins.

Rosto limpo, aplica apenas o necessário. Protetor solar e um pouco de blush. Escova os dentes, dirige-se ao elevador.

O maltês do seu vizinho desanda a latir, como sempre faz ao perceber passos no corredor. O elevador chega e está cheio. Melhor esperar o próximo.

Consegue sair do prédio e segue à pé pelo bairro, rumo ao edifício de consultórios a quarto quarteirões dali. O transito ainda corre leve.

O tempo hoje está bom.

No percurso, o celular ainda toca uma vez. Por algum motivo, ela resolve atender. Ouve a secretária de Dr. Patrício avisar que precisa cancelar a consulta pois ele está internado após sofrer um infarto. Não estava nada bem, corria o risco de morrer.

O cheiro da morte lhe acenara duas vezes numa mesma manhã, pensou. Ela se assusta e decide, de uma vez por todas, não mais esperar. Resolve usar seu aparelho que carrega apenas para olhar as horas e consultar na internet os preços do Losec. Olha na agenda. Ainda tem o número.

Antes de chegar à soleira do portal do edifício em que mora, faz uma ligação.

– Alô. Fábio. Meu filho. Preciso falar com você.

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