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Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

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Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

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Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

O Impossível

O Impossível – Foto: pixabay
Rosangela Maluf

Viviam na mesma cidade. Moravam no mesmo bairro e estudavam na mesma escola. Seu irmão e ele eram os seus melhores amigos. Nadavam no mesmo clube. Dançavam nos mesmos bailes. Jogavam vôlei no mesmo time. Os outros amigos eram comuns aos três: a ela, ao irmão e a ele. 

De colegiais passaram a sonhar com a universidade. Mudaram-se para a capital. Cursinho. Ele queria ser advogado. Ela estudando para odontologia. O irmão ainda não havia se decidido. Comemoraram, ela & ele, a vitória no primeiro vestibular. Do encontro no barzinho rolou um beijo e começaram, enfim, a namorar. Os dois com dezoito anos.

O tempo passou. Cinco anos voaram. Depois um ano mais que também passou rápido. Estágios. Primeiros empregos com carteira assinada. Sonhos comuns. Planos para o futuro. O primeiro carro dele. Resolveram viver juntos até que a situação se estabilizasse. Casamento? Sim, mas pode esperar. Foram deixando pra depois.

Uma bolsa de estudos e lá foi ele estudar nos Estados Unidos. Dois anos sem se verem. O amor permanecia inalterado e intenso. A volta. Fim da saudade imensa. Mais um tempo juntos, sob o mesmo teto. Novas paixões, agora vividas com maturidade.

Mais uns tantos anos e enfim, sós. Casamento como os pais sempre sonharam para eles. Festa só para os amigos do peito. Os mais chegados e antigos. Aqueles dos tempos de adolescentes e outros mais, do tempo da faculdade. Alegrias e felicidades – era o que todos desejavam aos noivos que, sob a chuva de arroz, corriam sorridentes pelo jardim da casa da avó.

Um, dois, três anos. Trabalho, cursos de pós, especializações, cada um em sua área. Finais de semana sempre juntos. Viagens nos feriados. Férias uma vez por ano, dinheirinho suado, economizado para conhecer um pouco da América do sul.  Menos paixão, mais amor, mais cumplicidade e companheirismo.

Numa noite veio o vendaval. Uma gravidez inesperada. Dela? Não. Da estagiária do escritório de advocacia onde ele trabalhava. Tsunami avassalador. Ela não acreditou. Não caberia uma segunda chance. Lágrimas. Dor imensa e um final infeliz, muito infeliz. Cada um para o seu lado. Sem chance de retorno. Corações quebrados, sem chance de remendos.

O tempo continuou a passar. Ele mudou-se para uma cidadezinha do interior e não houve continuidade com a mãe de sua filhinha. Permaneceu só. Ela conheceu pela internet um português, dentista também. Criou coragem e foi morar em Lisboa. Difícil era conseguir um bom emprego. Contentou-se com meio horário, em uma clínica especializada no atendimento às crianças. 

Não era infeliz, mas feliz também não era. No início tudo era novidade. A vida com aquele homem que ela respeitava, admirava e começava a amar. As viagens para outros países próximos. A beleza, a imponência dos locais que conheceu, as capitais famosas e deslumbrantes. Os costumes, os hábitos, tudo diferente, mas muito bom. Rápida e serena adaptação.

Por uma destas ironias do destino, o marido faleceu. Acidente horrível numa estrada. Outro baque em sua vida. Como da outra vez, pensou que não fosse sobreviver. Sobreviveu. Ficou mais um tempo e tomou a decisão de voltar ao Brasil. Voltou.

Nova adaptação. Novo apartamento. Novos trabalhos. Coração partido, lágrimas e ainda muita dor. Vida nova, apesar de tudo, uma nova vida.

Um dia o irmão lhe diz que encontrara na rua, assim por acaso, seu antigo amor. Dera a ele o telefone dela. E agora? Não queria. Frio na barriga. Muito medo. Não passou muito tempo, ele ligou. Conversaram. Aquela conversa boba de quem não sabe o que dizer. Marcaram um jantar. História resumida de cada um. Confissões várias. Desabafos muitos. Mágoas não esquecidas. Perdão, você me perdoa?

Ela perdoou. Vamos retomar de onde paramos? Não. Vamos tentar. Não. O que nos custa? Se não der certo, seguiremos cada um para o seu lado. Ela respirou fundo. Ficou de pensar melhor e dar uma resposta.

A filha dele morava com a mãe e ele vivia só. Tinha um bom apartamento, um carro novo e uma moto. Sim, sozinho, passou a cultivar esta nova paixão sobre rodas. Entretanto, apesar de conhecê-lo há tanto tempo ficou surpresa com o novo homem que viu diante de si. Nem melhor nem pior. Um homem completamente diferente daquele a quem amara por longos anos. Seria possível confiar nesse novo homem?

Foram muitos meses de encontros, conversas e reflexões sobre toda a história já vivida pelos dois. Para ela já não era mais amor. Para ele seria o resgate da grande bobagem feita há tanto tempo. Duas pessoas diferentes, muito diferentes. Solitários, os dois. Sem muito encantamento, mas com a ilimitada esperança de voltarem a ser felizes.

*

Em uma festa na casa de uma amiga havia muita gente desconhecida. Um casal me chamou a atenção pela sintonia ao tocar violão (ele) e a linda voz da mulher que cantava. Lá pelas tantas minha amiga parou tudo e anunciou o aniversário daquele casal. Ambos completavam 55 anos. Todos nós cantamos “parabéns pra você”, com muito entusiasmo. A mesma idade. Um casal bonito ainda. Os cabelos já grisalhos. Troca de olhares cheios de ternura. Agradeceram. Declararam seu amor um pelo outro. Houve beijos, aplausos. E seguiu a festa.

Na semana seguinte, convidei minha amiga para um café e comentei sobre o casal. Num longo papo, fiquei sabendo dessa história. Fiquei comovida. Gostei muito e para não me esquecer, resolvi escrevê-la.

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