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A planta da filha de Dona Matildes

Márcio Magno Passos

Reserva moral daquela pequena cidadezinha na Zona da Mata, Dona Matildes é cidadã cem por cento. Ministra da Eucaristia, ajuda em todas as atividades da igreja. No asilo presta serviço voluntário uma vez por semana, faz parte da lista de jurados pela Comarca, ajuda na apuração dos votos em todas as eleições municipais e participa da campanha do quilo. Aposentada, viúva e com a filha única morando na capital, vive para Deus e para a comunidade. Amiga de todos, tem respeito até das autoridades constituídas. Mais que respeito, ela é conselheira de todos na cidade.

Pessoa feliz, de bem com a vida, ela só lamenta a ausência da filha. Tomou todos os cuidados para garantir uma boa criação e até conseguiu, mas o gênio da filha é muito diferente. Sempre quis morar na capital e detesta a cidadezinha do interior que a mãe tanto adora. Mal visita a mãe, o que obriga Dona Matildes a viajar pelo menos uma vez por ano a Belo Horizonte. Em março, ela esteve lá para ver a filha. Achou que ela estava um pouco magra, meio distante, ainda mais esquisita. Não deu muita importância, pois se acostumara com as indacas da filha.

O apartamento até que estava arrumado e conservado, mas uma planta na cozinha chamou a atenção da mãe. Mal cuidada, desfolhada e muito grande para o pequeno vaso. Acostumada a paparicar a filha, ela decidiu levar o vaso escondido para o interior para recuperá-lo e depois devolver para o apartamento da capital.

Na semana passada chegou um promotor novo na cidadezinha de Dona Matildes e, como tradicionalmente acontece, ela ofereceu um jantar de boas-vindas com a presença de todas as autoridades. Estavam lá a juíza, o promotor se despedindo, o que estava chegando, o prefeito, o presidente da Câmara, o padre, o delegado, o juiz de paz, a dona do cartório e a diretora do colégio, além de Sô Mazinho, comerciante mais influente da cidade. Mais não foram convidados, até porque a mesa da sala de jantar não comportava mais gente e o momento não cabia prato na mão de autoridade em pé.

O ritual repetiu-se pela enésima vez. Os convidados foram recepcionados na varanda pela anfitriã, conduzidos para a grande sala onde recebiam uma taça de vinho e ficaram conversando até o jantar ser anunciado. Na sala de jantar e com os lugares já determinados, os convidados saboreavam a famosa leitoa à pururuca da dona da casa e depois retornavam à sala onde continuavam a conversa entre licores e chocolates. Invariavelmente era sempre isto o que acontecia.

Naquela noite, alguma coisa acontecia de estranho diante dos olhos de convidados mais observadores. Um vaso bonito e vistoso, certamente muito bem cuidado, enfeitava um dos cantos da sala e atiçou a curiosidade do delegado. Ele caminhou em direção ao vaso e o observou atentamente enquanto molhava a ponta da língua com licor de cacau. Chamou o juiz e fez algum comentário ao pé do ouvido. O juiz chamou o promotor e passou o comentário para frente. Curioso, o padre se juntou ao grupo querendo saber o que tanto era olhado. Dona Matildes percebeu a admiração de todos e aproximou-se orgulhosa.

“Este lindo vaso é da minha filha e estava todo desfolhado no nosso apartamento em Belo Horizonte. Aí eu trouxe para dar uma recuperada nele e devolver depois.”

Na sexta-feira pela manhã, o carro da polícia parou em frente à casa de Dona Matildes, o delegado informou que estava indo para Belo Horizonte e se ofereceu para levar o vaso com a planta para a filha. No meio da viagem o delegado parou o carro e jogou o vaso fora. Reserva moral da cidade, é bem provável que ela jamais venha saber que cultivou em sua famosa sala de visitas, o mais famoso pé de maconha da história de sua cidadezinha.

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Márcio Magno Passos

Nascido carioca na maternidade de Botafogo graças à vocação aventureira do pai, Márcio se transformou em mineiro com menos de um ano de idade. Morou em BH e Nova Lima, até de estabelecer em João Monlevade no final da década de 50 e, hoje, se transformar em cidadão regional com residência e cidadania honorária lá e em Itabira, trabalhando em toda região do Médio Piracicaba. Iniciou na comunicação em rádio no final dos 60, mas se definiu pelo jornalismo logo em seguida e nunca mais o abandonou, além de funda o jornal A Notícia com 38 anos de circulação e se especializar em assessoria e consultoria política e marketing eleitoral e institucional. Hoje, aos 70 anos e aposentado do jornalismo, continua trabalhando 12 horas por dia como consultor e secretário de Governo de Itabira, mas contando os dias para continuar viajando pelo Brasil e pelo mundo.

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