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Ninguém aguenta mais não aguentar mais

Imagem de OpenClipart-Vectors por Pixabay
Victória Farias

Havia uma estranheza no ar. Um descontentamento coletivo. Uma falha sistêmica quase invisível, mas que trazia incômodo a qualquer um que se interessasse em olhar de perto, ou que ligasse a televisão em horário nobre. As palavras que vinham das ondas de rádio ouvidas durante longas filas de espera em postos de gasolina não pareciam fazer sentido. Os gritos indignados de quem clamava por respostas eram quase uma encenação grotesca que só era passível de entendimento para aqueles que se forçavam a acreditar que aquilo que estavam vivendo não era verdade.

E eles existiam. podia-se se ver da janela um ou outro, que parecendo coabitar entre si em um mundo paralelo, desafiavam a própria realidade de números e palavras sentenciais. Era inútil o mantra de “ninguém aguenta mais” e a ameaça aqueles que descumprissem as regras cuspidas para um microfone ao fundo de seis bandeiras era a envergonhada multa. 

Se eu tivesse que discutir com um policial o que adianto, não tenho ímpeto para tal – seria mais ou menos assim: se você está me multando, quer dizer que eu poderei sair da minha casa e ir para a fila da lotérica? Se a resposta fosse sim, entenderia como um convite à liberdade; se não, o Estado teria que se virar para existir sem o pagamento dos cem reais da taxa. As duas hipóteses me parecem extremamente impiedosas para um espírito humano que como todo mundo não aguenta mais.

Não vou mentir que não me divirto com as reportagens feitas pelos colegas jornalistas na tentativa de intimidar as pessoas que andam por aí com os dentes à mostra. Não sei como treinam suas expressões de surpresa quando algum entrevistado diz: por que eu deveria me importar? Sem saber o que fazer, soltam números de contas que nem eles mesmos sabem se corretos de Estados que por boa vontade e bem coletivo, se comprometem a atualizar um sistema diário com aqueles que não mais poderão enfrentar filas de lotéricas. Os números, a menos que sejam de uma conta bancária negativa, parecem não impressionar ninguém. 

A despeito disso, vi muita coisa que, mesmo ao longo dos anos e jurando que já tinha conhecido o pior, não queria ter presenciado. Com um pesar quase de morte, entendi que saber o quão cruel podemos ser se mostra pior do que todas as crueldades já vividas. Ver o quão longe uma ideia pode ir, ou o quão inadequado um senso pode ser, tirou de mim alguma alegria imerecida que eu poderia ter acumulado ao longo desses dias apesar de todas as tristezas.

Constatei que, embora caminhemos para “sair dessa”, “essa” parece que nunca aceitará o convite de sair de nós. A ignorância, uma conhecida que queria longe, agora se veste de amiga que convido a se juntar a mim antes de ler o jornal diário, que termino sempre com um constatar “aqui jaz tudo que o Hino me prometeu ser, e tudo o que uma promessa de campanha disse que seria“.

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