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Natal? Gosto não…

Rosangela Maluf

Natal? Gostei sim, quando era ainda criança e a magia das festas natalinas me deixava boquiaberta, o coraçãozinho acelerado. Os cochichos com as amigas, a lista de presentes, o movimento nas lojas, as pessoas nas ruas, tudo era motivo de surpresa e admiração. As musiquinhas eram cantadas ao longo do dia, o dia inteiro, todos os dias. A árvore de Natal, o presépio com tantos bonequinhos, as cartinhas para o Papai Noel. Aquele encantamento era o resultado de momentos de espera, ansiosamente relembrados durante o ano todo.

Gostei sim, enquanto os meus filhos eram pequenos e o feriado do dia oito de dezembro, invariavelmente, era consagrado à preparação para o Natal: tira a árvore do armário, limpa, monta o pezinho triangular. Separa as bolas coloridas. Desenrola os fios de luz, os cordões dourados que seriam entrelaçados à árvore, prepara tudo! 

– Cadê os enfeites de parede? 

– Vamos dependurar o quê, nas portas? 

– As velas, mãe, suas velas gigantes, onde é que estão? 

E a tarde voava até que começava a escurecer. Teste das luzes. Eeeeeeba, funcionou.

– Coloca a musiquinha do Natal. 

– Mais alto.

Gostei sim, dos inúmeros natais na cádivó! Os irmãos reunidos, a sobrinhada se divertindo. A casa cheia, do jeitinho que a Vó adorava. O Vô quieto, sempre na dele, rindo feliz por ver os netos tão carinhosos e beijoqueiros. A casa já encontrava-se devidamente enfeitada; entretanto cada uma das mulheres da família levava ainda mais enfeites. E lá íamos nós, conversando muito e rindo alto. Como encontrar lugar pra todos os ornamentos natalinos? A toalha da ceia. Os paninhos engomados. Forrinhos com motivos natalinos, alegres, lindos. A mesa cheia e farta. As orações do papai. A prece de mãos dadas, nós todos emocionados, ao redor da mesa. Os pedidos. As graças e as bênçãos recebidas. Obrigada, senhor!

Gosto não! Faz tempo que deixei de gostar do Natal. A confusão do final do ano me irrita profundamente. Não gosto de shoppings, de lojas cheias, do trânsito ainda mais caótico. Buzinas, barulho, falatório: Affee!!! Constato que quanto mais o tempo passa, mais impaciente me sinto com essas coisas e mais tolerante e paciente sigo com a minha solidão, que é libertadora.

Dezembro vai passando e daqui a pouco é Natal, de novo. 

Natal em um ano profundamente chocante. Surreal. Desastroso. Inacreditável. Ainda não digeri todos os absurdos assistidos nesse ano, tanto no Brasil quanto fora dele. O Caos instalado no mundo inteiro. Calamidades, desmandos, insanidade galopante e tão contaminante quanto o novo vírus. Temos visto provas concretas, todo dia, todo santo dia!

Como celebrar o Natal com tantos imigrantes morrendo aos montes nos oceanos, na tentativa desesperada de encontrar um país que lhes acolha. Chegar aonde lhes seja possível sonhar com uma vida melhor pra si, sua família, seus filhos? Penso neles, nos refugiados sem trabalho, mal instalados, sem banho, sem ter onde dormir, sem ter o que comer. Não é o mínimo que um ser humano precisa para que sejam atendidas suas necessidades básicas? Doentes, desnutridos, infelizes, lamentando a saída de seus países de origem e a chegada a lugar nenhum?

Como celebrar o Natal com o planeta em chamas. Não é possível ignorar as queimadas, as mortes, a destruição das matas, dos animais, das aves, da vida! EUA, Austrália, Amazônia, incêndios pra todo lado. Populações inteiras correndo do fogo, no desespero, tentando se salvar. Um governo irresponsável, inconsequente, permissivo, adotando políticas de (des)proteção, deixando-nos chocados com tanta omissão e incompetência. Milhões de árvores destruídas pelo fogo. Tudo sendo queimado, reduzido a cinzas: plantas, animais, aves, peixes e um irresponsável ministro do meio ambiente isso acha normal. O que será de nós?

Como festejar após tantas mortes humanas. Mortes de brancos, amarelos, pardos e negros. Vítimas de balas perdidas. Vítimas de preconceito racial. Na crescente onda de violência que assola o país, sendo o Rio de Janeiro o mais violento. Morremos todos a cada dia. Como não se comover com dezenas de crianças, atingidas por armas de fogo, balas disparadas em operações equivocadas e mal planejadas. Diante da TV, estarrecidos com um rosário de barbárie sem fim, assistimos à violência policial, em escala crescente, seja nas ruas, nos supermercados, nos morros: em todo lugar se mata negros, pretos, crioulos…e a vida negra importa sim, tanto quanto a sua vida e a minha. Mais incompetência! Uma polícia despreparada, mal treinada, pessimamente remunerada. O que será de nós?

Uma explosão em Beirute, no Líbano, mata quase duzentas pessoas. Terremotos na Indonésia, inundações, alagamentos, seca na África e em algumas regiões do Brasil. Até ciclone teve em Santa Catarina. Essas pessoas terão Natal? Algum sentimento festivo ou natalino será capaz de lhes envolver a alma? Não sei. O Globo terrestre perdeu a cor, é só cinza(s).

E o Coronavírus? Pandemia mundial, afetando todos os povos, todas as raças, credos, etnias, faixas etárias, hábitos & costumes. Todo e qualquer ser humanos sujeito ao seu ataque oportunista, maléfico e em muitas das vezes, fatal. Desconhecido, com comportamento ainda não totalmente esclarecido, mas capaz de mutações inesperadas, segue destruindo em massa por onde passa. E as vacinas? Outra novela. Assunto de Saúde Pública, de extrema gravidade sendo manipulado como um joguinho político, ideológico, tão ridículo quanto seus participantes. O que espera por nós?

Aulas suspensas, nada de espetáculos artísticos, instrumentos da sinfônica usados em lives – que ninguém aguenta mais! Partidas de futebol sem torcedores. Estádios vazios, silêncio. Ainda chegam nuvens de gafanhotos que vêm e que vão. A cervejaria mineira continua no centro das notícias com sua cerveja contaminada e, pelo menos, dez mortos até agora. O Carnaval foi cancelado. A segunda onda já está aí e a terceira suposta onda parece já ter tido início na Coreia do Sul. Aqui no Brasil acendem-se as luzes vermelhas: novamente fechamos os bares e restaurantes, proibimos as aglomerações, sugerimos higienização das mãos a todo instante, e o uso da máscara torna-se mais que obrigatório. O que será de nós?

Como prisioneiros, ficamos em casa. Evitamos sair. Evitamos os encontros, os beijos, os abraços. Compramos apenas o essencial, o estritamente necessário. Nada de contato físico. Todos perfumados pelo insuportável odor do álcool em gel. TV, OK. Internet, OK. Telefone OK. Grupos (chatos) de whatsapp, OK. E para quem gosta de ler, de ouvir música, de joguinhos online, uma chance única de aproveitar o tempo livre. E assim estamos nós esperando pela maior festa da cristandade. Ah, Menino Jesus tenha pena de nós!

Pra mim não haverá Natal. Minha casa não terá enfeites, nem guirlanda na porta de entrada. Não haverá ceia, apenas um jantar comum. Talvez um pouco mais caprichado incluindo um vinho rosé. Nada de presentes, nem amigos ocultos, nem lembrancinhas, nada disso haverá esse ano. Um filho e a nora na Inglaterra sem poderem sair. O outro filho, mais animado, prepara uma reunião com todos os primos e primas na cadivó – com a morte da matriarca do clã, provavelmente será o último Natal a reunir todo mundo, veremos. 

Querido Natal, não haverá ressignificação para você: a data magna do catolicismo continua, vazia como tem sido nos últimos anos. Nada mudará. Diante dos muitos absurdos, talvez uma tristeza maior será sentida na noite sem festa. Farei minhas meditações, minhas preces, orações e certamente listarei todas as bênçãos e graças que me foram concedidas ao longo do ano. Assim, quase como uma repetição, já fica igualmente adiantada a mini- cerimônia para o ano novo. 

E chega! 

E como sempre faço, do fundo do meu coração, agradecerei, agradecerei, agradecerei!

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