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O Anjo da Guarda

Rosangela Maluf

Alguém bate palmas lá fora, na rua. 

Corro até a janela, me coloco na pontinha dos pés e vejo um carro azul, parado na porta de nossa casa. Aproxima-se um senhor e diz: – Oi menina, chama a sua mãe! – Saio correndo e chamo por ela que desliga o ferro de passar e vem ver quem é. 

– Bom dia, dona, sou Miguel, mascate em Beozonte. Vou embora amanhã, mas antes escolhi esta rua pra apresentar minhas mercadorias. Vim trazer umas coisas muito bonitas pra senhora ver. Novidades que a senhora nunca viu por aqui. Não tem, no mundo, um mascate melhor que eu. Pode acreditar.

– Obrigada, seu Miguel, quero nada não. Preciso de nada não. Fica pra uma outra vez, viu?

– Mas a senhora não precisa comprar nada, eu só quero mostrar. Pode acreditar em mim. A sua filha aí, olha só… ela vai ficar encantada quando olhar o que tenho aqui nesta caixa. É mesmo pra criança. Uma coisa do outro mundo. A senhora não vai se arrepender. Me permite…

– Tá bom, seu Miguel. Não tenho muito tempo. A moça que me ajuda não veio hoje, tenho roupa pra passar, daqui a pouco jantar pra fazer. Tenho horário, sabe?

Seu Miguel entrou, sentou-se no sofá. Abriu uma mala pequena e de dentro dela tirou uma caixa de papelão. Puxou um fio comprido e colocou no colo aquilo que ele iria mostrar. Fez um pequeno discurso que nem ouvi tamanha a curiosidade pra saber o que havia naquela caixa.

Era um quadro, mas não era quadrado, era oval. Não muito grande, apenas o suficiente para mostrar uma coisa linda! Levei as mãos à boca, não falei nenhuma palavra, mas certamente devo ter arregalado os olhos.

– Achou bonito, filha? Minha mãe perguntou.

Eu apenas acenei que sim. Estava em êxtase com o que via.

O que havia naquele quadro era a pintura (!) mais linda que eu já tinha visto. Nos meus nove anos de vida jamais vira coisa tão bonita. Nem nos livros do papai. Nem nas revistas da minha mãe, nem nas Seleções. Nem nas matinês, nunca, em lugar nenhum.

“Era de tardinha, quase noite. Não havia sol, mas também não havia lua nem estrelas. Uma ponte de madeira, meio destruída. Um rio de águas revoltas, (na minha mente, eu já havia criado toda a história), dois irmãos de mãos dadas, atravessando a ponte. Por detrás deles, sem que percebessem havia o quê? Um anjo. Um anjo enorme, com asas enormes. Cabelos louros e longos. Roupa azul clarinho, uma túnica, comprida, indo até o chão. Olhava com a cabeça inclinada para as duas crianças que seguiam, inocentemente, pela ponte perigosa. O anjo tinha os braços abertos, cercando os dois. Protegendo-os. Era perigoso atravessar a ponte, naquela altura. O rio cheio de espumas, lá embaixo. Era mesmo muito lindo e muito perigoso,” eu pensei.

Não ouvia nenhuma palavra do que o seu Miguel falava pra minha mãe. A minha vontade era a de agarrar aquele quadro. Me abraçar com ele. Atravessar aquela ponte. Não iria sozinha, em cada mão levaria um dos meus irmãos. Ser protegida por aquele anjo tão bonito, com os pezinhos aparecendo sob a longa túnica que ele vestia. Os três atravessando a ponte. Fechei os olhos e podia ouvir o rio. Havia música no ar. 

Olhei pra minha mãe que já havia então acertado tudo com o seu Miguel. 

– Leva a caixa pro meu quarto, coloque em cima da cama com todo cuidado e não mexa. Mais tarde, quando o seu pai chegar da usina vamos mostrar o quadro pra ele e pros meninos. Depois que os seus irmãos tomarem banho, colocarem os pijamas, todo mundo limpinho e prontos pra dormir, aí vamos ver todos juntos, o quadro do anjo da guarda.

Todos nós de banho tomado, esperando a sopa que, naquele dia, demorava muito. Eu, caladinha, não comentei nada com nenhum dos dois irmãos. Tudo como previsto… minha mãe entra no nosso quarto, fecha a porta. Chama o meu pai, fecha de novo a porta e nós três lá, esperando do lado de fora, sem saber o quê!

Podem entrar – ela diz sorrindo e abrindo a porta. O meu pai ao seu lado, sorri também.

Entrei primeiro e não disse nenhuma palavra. Entraram depois os meus dois irmãos. Cheios de risos, de perguntas. Batendo palmas, querendo ver tudo. Meu pai ajeitava ainda os fios. Fios? Sim. O quadro além de toda a beleza que eu observara, acendia. Isto mesmo: ao ser ligado à tomada, dezenas de pequenas luzinhas não só brilhavam como também piscavam. Era de uma beleza inacreditável. Ficamos os cinco em silêncio. Cada um admirando, do seu jeito, aquela maravilha. Luzinhas. Um quadro iluminado. Um anjo da guarda que poderia ser visto no escuro. Como eu poderia imaginar que existia algo assim, tão lindo? Parecia magia… parecia mesmo!

Fiquei com vontade de chorar, mas não tive coragem. 

O que poderiam todos eles, pensar de mim? Pensei em pegar o meu caderno de Língua Pátria e escrever sobre o que eu estava vendo. Fazer uma redação. Pensei em escrever sobre o que eu estava sentindo. O coração disparado, a alegria incontida. Pensei em contar pra Elisa, minha melhor amiga. Pensei em desenhar e colorir numa folha de cartolina, depois, quem sabe, colar com durex na cabeceira da minha cama. Eram tantos os sentimentos que eu não disse nenhuma palavra. Só o coraçãozinho se mantinha disparado.

Já bem mais tarde fomos pra cama. 

A gente se deitava muito cedo. Ainda não havia TV em casa, mas o rádio ficava ligado, no quarto dos meus pais. Como era inverno, não havia as brincadeiras de rua, por isso deitávamos cedo. Mas, não podíamos reclamar de nada: o meu pai havia colocado uma extensão de modo que o quadro ficava no alto, dependurado na parede e a gente navegava por aquele rio enquanto o sono não vinha. Eu piscava, abria e fechava os olhos: o quadro continuava lá. O anjo olhando pra mim e eu olhando pra ele. As luzinhas piscando, azuis, verdes, amarelas e vermelhinhas!

Não sei quantas vezes me perguntei se anjos existiam de verdade. Se cuidavam mesmo da gente, em situações de perigo. Se eram mesmo lindos daquele jeito. Louros, enormes, asas imensas…será que existiam? Minha mãe dizia que sim, era tudo verdade e eu deveria parar de fazer tantas perguntas, de duvidar de tudo: que coisa!

Passados muitos e muitos anos lembro-me ainda de cada detalhe do quadro. Do anjo da guarda. Da ponte destruída. Do rio, da mata. E por que não confessar que ainda hoje sinto aqueles braços enormes a me sustentarem quando fraquejo; aquele colo onde me abrigo quando me sinto criança de novo; aqueles olhos claros que me transmitem força e equilíbrio quando a confiança me falta. A paz que vem do anjo; do seu caminhar sereno e firme sobre a ponte frágil, e aquela energia boa que me tranquiliza e que até hoje me envolve, antes de dormir.

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One thought to “O Anjo da Guarda”

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