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Outono no Havaí

A Criação de Adão Fresco de Michelangelo
A Criação de Adão – Fresco de Michelangelo

Victória Farias

A sensação de enfiar os pés na areia nunca tinha sido a sua favorita. Ele não gostava muito de areia. Incomodava, e entrava em lugares impossíveis de tirar. À quilômetros de distância do mar, podia sentir os pequenos grãos tentando entrar em todos os seus poros e cantos. Mas, ainda assim, amava o mar. Mas só de dia. A noite, tinha medo de que aquela imensidão vazia o engolisse e o esmagasse em um escuro que parecia ser pesado demais para carregar.

Mas, isso não o impedia de ir em busca das ondas – preferia as calmas – dos litorais ao redor do mundo. Uma folga no trabalho era o suficiente para as malas, já prontas, entrarem no compartimento de bagagens do avião e seguirem para a próxima borda litorânea desconhecida.

Na água, tudo era muito leve. Todos os seus problemas se resumiam a tentar boiar o mais próximo da costa. E ele quase sempre conseguia. Por minutos, se perdia na sua própria imensidão. Absorto no sal e sujeira, batendo sem querer com os pés e mãos nas pessoas a sua volta.

A sua fascinação pelo mar estava exatamente naquilo que não podia encontrar em solo: liberdade. Aqui, na “terra à vista” tudo era muito complicado. Ônibus cheios, gravatas apertadas, pessoas em que ele não confiava lhe lançando sorrisos. Comida cara; um fanatismo à direita. O pôr-do-sol escondido atrás de um “empreendimento de 24 andares, venha conferir!”.

Na calmaria das ondas, perseguia a gratidão que sempre pedia em suas orações. Encontrava outras coisas também como óculos, chapéus e latinhas de cerveja. Mas, os humanos nunca deixam de ser humanos, e, mesmo sabendo que era isso que um dia iria nos destruir, ele não podia deixar de sentir uma pontinha de gratidão – até por isso.

Saía do mar com o sentimento oposto ao que Pedro Álvares Cabral saiu do seu barquinho de papel. Caminhava pela areia triste. Entrava no avião deprimido. Ia trabalhar na semana seguinte inconsolável. Já não era mais outono, e o Havaí parecia um sonho distante.

Mas, entendia, quando olhava pelo 15º andar do “empreendimento de 24 andares, venha conferir!” às 17:59, que tudo que sentia no mar também não passava de um sonho distante. Como os dedos das pinturas na Criação do Homem de Michelangelo, sabia que nada daquilo, de fato, poderia ser alcançado. E, sobre isso, não conseguia sentir nenhuma pontinha de gratidão.

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