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Ancestralidade das minhas terras

Lapinha da Serra - Arquivo Pessoal
Lapinha da Serra – Arquivo Pessoal
Sandra Belchiolina
sandra@arteyvida.com.br

PARQUE NACIONAL DA SERRA DO CIPÓ

Vou contar um pouco da minha história. Acho que irão gostar, pois sou de terras ancestrais e com muitos “causos”. Tenho 1,7 bilhões de anos e minha origem era o fundo do mar. Com os movimentos tectônicos da terra, placas se deslocaram e emergiram. As marcas das águas em minhas rochas sedimentares são vistas até hoje em muitos locais da minha extensão. Nasceram apontando para o oeste; para o pôr do sol. O que se apresenta como uma paisagem exótica e muito apreciada por todos que já transitaram por aqui nesses longos anos.

Sou parte da cadeia do Espinhaço, e, na nossa belezura e riqueza de vida, atravessamos Minas Gerais e chegamos até a Bahia. 

Em minhas terras abriguei os primeiros habitantes das Américas. Eles também deixaram suas pinturas rupestres em minhas rochas e lapas. A mulher mais antiga das Américas – Luzia, foi encontrada a poucos quilômetros daqui. Seus parentes e muitas outras tribos viveram em meus abrigos, comeram de meus frutos e beberam da minha água, isso há 13.000 anos.

Depois vieram os tropeiros. Sou riscado por suas trilhas. Queriam minhas riquezas em ouro e diamantes, mas as encontraram mais além, no corpo central ao qual pertenço. Chamou-se posteriormente de Estrada Real esse trajeto, pois a coroa portuguesa levou muito de nosso ouro e diamante. Nessa época, estavam interessados nesse tipo de acumulação. Mas digo uma coisa, o que tenho é muito mais valioso e o será mais e mais em um futuro próximo.

Em seguida chegaram os fazendeiros com seus gados e plantações. Um dia enxergaram minha importância para o Brasil e para humanidade. Foram criados contornos e pude aliviar-me e cuidar de meus frutos e rios. Tornei-me área de preservação. Ufa!

Fui batizado em 1974 como parque estadual, mas devido a minha biodiversidade e a importância de minhas nascentes, em 1984 passei a ser o Parque Nacional da Serra do Cipó. Nome derivado da localidade – onde está inserida grande parte das nascentes da Bacia do Rio Cipó. Estou numa região de grandes belezas cênicas formada por serras, rios, cachoeiras, vegetação de cerrados, campos rupestres e de altitudes com uma grande variedade biológica e sítios arqueológicos. Meu tamanho oficial é 33.800 hectares.

Pinturas Rupestres - Arquivo Pessoal
Pinturas Rupestres – Arquivo Pessoal

Meu Rio Cipó é menino importante! Suas águas são de classe A, isso significa que nem esgoto tratado deve ser despejado nelas. O Rio das Velhas respira somente quando encontra com meu rebento. A cidade grande judia dele. É uma dó o que fazem com o rio.  Mas, com o oxigênio das águas boas do Cipó, ele caminha para o majestoso São Francisco – o rio da integração nacional. Veja a minha importância para o Brasil. Tenho minha guardiã – a APA MORRO DA PEDREIRA. Ela é meu cinturão de proteção. Nem sei o que seria de mim se não o tivesse. O que sei é que tenho passado bons perrengues com aqueles que não têm consciência e prezam mais a especulação imobiliária.

Em contrapartida, tenho boas pessoas que me cuidam e se movimentam para que a vida mantenha sua diversidade em mim. Por anos seguidos estou sofrendo com o avanço do dito “progresso”; para mim uma incompreensão dos fatos e da interligação das ações humanos sobre a terra.

Hoje, dia 07 de outubro, após dez dias de sufoco, respiro melhor. E você que me lê também, pois está no entorno do Grande Cipó (não Grande BH e não Grande Mundo).

Digo isso porque a operação de combate ao fogo encerrou-se, não há calor que me ponha em risco nesse momento. Dessa vez o começo do fogo foi na minha guardiã e se alastrou até minhas entranhas. Aconteceu dia 27 de setembro, com um foco inicial em São José da Serra, no município de Jaboticatubas. Foram dias de perrengue. Dessa vez queimaram-se matas ciliares que nunca haviam sido. Ando preocupado com minhas águas, animais e plantas. Não sei se a ferida que estão me deixando se recupera. Sabe sua pele quando queima? Dependendo da ferida o corpo não dá conta de cicatrizar. Estamos perdendo espécies e nascentes com esses horrores que acontecem. Assim, conto minha história e quero que pensem sobre a vida, essa que contribuo para que seja melhor para você e sua família. Vem comigo garanti-la?

Trilha Serra do Cipó - Arquivo Pessoal
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