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Pixabay
Tais Civitarese

Ando ouvindo jazz escondido. Meu marido não pode saber. Sempre detestei jazz e preciso manter a pose. Se ele me ouve ouvindo, vai ver que sempre esteve certo. 

Provavelmente, irá abrir a radiola e me mostrar aquele seu último vinil, que garimpou. Se bobear, irá preparar para nós dois um old fashioned. Não posso permitir isso! Por isso, fico aqui ouvindo baixinho no celular. O choro do Miles ou o lindo piano do Duke Ellington. 

Não sei como isso aconteceu. O jazz sempre foi a praia dele. Estava reservando esse prazer para em torno dos meus 50 anos. Acho que combinaria mais. Pois não sou boba, sabia que esse dia iria chegar. Porém, veio mais cedo do que eu pensava. Fui capturada pelo som. E agora? Como esconder? 

Um dia, ele me pegou no flagra. Perguntou se eu estava ouvindo e menti. Desliguei a música na hora e mandei as crianças irem tomar banho. Aproveitei para entrar no banheiro com elas, fingindo braveza, religar o som e ouvir com o aparelho colado ao ouvido. Tinha o disfarce dos gritos e o barulho do chuveiro. Não podia correr nenhum risco! 

Outro dia, ele perguntou de novo e falei que era apenas uma propaganda de perfume caro. Ele me olhou intrigado e o lembrei que tinha que mandar consertar o secador de cabelo. Nem sei por quê. Só precisava mudar de assunto. Percebi que o único lugar seguro para ouvir é dentro do carro. Fecho as janelas e deixo a batida me levar. Na garagem do prédio mesmo. O problema é fazer isso sem causar estranheza, pois a câmera de segurança fica apontada direto para a minha vaga. O que fazer?

Posso lançar mãos dos fones de ouvido. Mas se ele me vir dançando, certamente irá perguntar o que ouço. E se eu deixar escapar um agudo, posso me trair pela empolgação. Quando ele sai se casa, aumento o volume e me deixo levar. Quando volta, retomo a pose séria e me finjo atarefada e resolvendo problemas de administração.

Sei que um dia ele irá descobrir. E terei que admitir que sim, ele tinha razão. A única coisa pior do que isso é ficar sem ouvir o jazz… 

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