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Primaverão

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Tais Civitarese

Na 5a série, aprendi que no Brasil não tinha terremoto, furacão ou desastres naturais. Nem minha professora, nem eu, nem meus colegas sonhávamos com tempos de silêncio, medo e reclusão. Quem não passou por uma reviravolta esses meses, que aplique o primeiro álcool em gel. Quem não perdeu alguém próximo ou querido, também.

No final do ano passado, escrevi que 2020 seria maravilhoso, pois seria o primeiro ano da década de vinte do século vinte e um. Isso me remetia a um certo romantismo pós-guerra dos tempos de vestidos cintura-baixa, muita música e meias-calças brancas arrematadas com sapatos em verniz. O nosso ano 20, socorro, foi bem diferente disso aí…

Estamos em setembro e começamos a chegar aos “finalmentes” da situação. Nunca sequer pensei no ano novo em setembro, mas dessa vez, o desejo de que o tempo passe rápido me faz sentir quase que próxima da semana do Natal. Como se a mudança do dígito final no calendário encerrasse esse ciclo surreal em que entramos. Sabemos que não será assim. Porém será simbólico mudar.

 A cidade começa a se movimentar de novo, do jeito que consegue. Saímos recolhendo os caquinhos e tocando pra frente com a cara semi-coberta por pano e algumas (ou muitas) expectativas. A cada dia, procuro no jornal a tal vacina. Uma hora ela vai chegar.

Os assuntos andam obscuros, todo mundo muito machucado. Eita que chegue logo o verão, e me vem à mente uma paisagem de mar com gaivotas voando e um sol bem forte e escaldante no céu. Clichê maravilhoso da boa sensação.

Ainda não acabou. Ainda teremos as eleições. Ainda tem um pouco de água para rolar, dessa vez, espero, com melhor escoamento municipal. Que abram as comportas e não as esqueçam nunca mais.

Essa paisagem ensolarada existe, mas a vida real nem sempre é assim.  Na falta do terremoto, tem os vírus, as perdas, os problemas, muitas dores, algumas saudades e arrependimentos. Tem também muito mar. Dá próxima vez que eu vir o mar, vou mergulhar até o cabelo ao invés de somente molhar os pés. Pois é raro, é bem raro poder fazer isso. E quando podemos, é bom demais. 

A gente aprendeu um pouco melhor que as férias podem demorar para chegar. Que não dá para ser feliz somente nelas. E que a ausência de coisas ruins também é um milagre.

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