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Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Alta do confinamento à revelia

Eduardo de Ávila

Num ato de resistir à acomodação inerente a qualquer ser vivo, comecei – bravamente – a oferecer reação ao momento de isolamento. Fui e me mantive fiel às recomendações da ciência e medicina até a última semana. Calma! Não extrapolei, até porque minha hipocondria me ajuda a segurar.

Ocorre que, desde 15 de março, obediente e oscilando entre momentos de compreensão e outros – ainda que raros – de desanimo e desesperança, ofereço à minha vida a possibilidade de transitar e circular. Com todo cuidado, evidentemente.

Durante mais de 160 dias estive exemplar no comportamento, assim diria minha mãe. Mas, com a liberação do shoppings e cafeterias me permito sentir a cidade e ver as pessoas. Raro era ela me dizer isso, até porque – como já mostrei no meu face – numa hepatite ainda na adolescência a recomendação era trinta dias de repouso. Passei mais de três meses, exatamente por falta dessa disciplina.

Os tempos são outros e esses cinco meses foram longos demais. Até tentei ir ao jogo do meu time no domingo, mas minha idade impediu a realização desse desejo, ainda que na condição de jornalista credenciado. Idoso tem alguns bônus, mas também carrega o ônus dos tempos. Fato é que, cuidadosamente, estou circulando.

Esse período de introspecção me permitiu muitas viagens ao passado. Nossa vida agitada, notadamente em metrópole, não permite essa reflexão e observação do que se foi. Trouxe aqui nesta nossa prosa semanal algumas boas lembranças da infância, adolescência e muitas outras ainda vieram à tona no meu pensamento. Subir em árvore e fazer montaria na fazenda. Era fácil subir, nos dois casos, mas o momento de descida sempre era trágico e amedrontador.

Outras gostosas lembranças pude experimentar durante o isolamento quase social. Quase, pois a vida moderna e suas redes sociais aliviaram bastante esse distanciamento. Conversar por vídeo, o trabalho em home office, postar diariamente nos dois blogs e interagir com o leitor, tudo isso foi como um bálsamo na sobrevivência intelectual de cada pessoa.

Belo Horizonte

Creio que o pior já passou, graças à ação eficiente dos profissionais da saúde e de gestores públicos – estaduais e municipais – que contribuíram ao entendimento da necessidade do confinamento. Os níveis de contaminação estão estabilizados com tendência de queda. Paralelo a isso, está cada dia mais próxima à possibilidade de vacinação em massa e a volta à normalidade total do planeta Terra.

Procurei ficar isento e imune às explorações politico/ideológicas e teorias da conspiração sugeridas por quem não tem a população como prioridade e sim seu perfil de cumplicidade com algum dos lados em litígio. Sobrevivemos a toda essa trama. Com a flexibilização em andamento, também – ainda que um tanto à revelia – estou me permitindo andar pelos lugares que me trazem prazer de viver.

Nascido muito antes da experiência de circular em shoppings, encontrei neles quase tudo o que procuro. Restaurantes, lojas (ainda que seja um mísero consumidor), lotérica para minha fezinha semanal, cafeterias e entre essas dádivas só me falta a reabertura das salas de cinema. Fora de lá, ainda me dói não poder ir aos jogos do meu time do coração. Tá breve!

Apraz, entretanto, informar às amigas e aos amigos que essa minha extravagância vem sendo feita com absoluto cuidado. Máscara, agora apenas a de rosto (abandonei aquela de astronauta); medição de temperatura, oxigenação e pressão arterial antes de sair de casa; álcool em gel no bolso; mantenho a distância recomendada entre pessoas. Tenho reencontrado gente que me faz bem. Se Deus assim me permitir, essa estripulia não será motivo de punição a quem tem fé e sempre pautou conduta com respeito à própria vida e de terceiros.

Sigamos!

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2 thoughts to “Alta do confinamento à revelia”

  1. Que coisa, não! Viver o cotidiano passou a ser “estripulia” e o normal do normal é olhar o amiguinho do lado com a mesma desconfiança q se encarava uma árvore_ jamais fui bom neste quesito_ e desistir de escalá-la por não se dar bem com esta prática. Neste mundinho negacionista,”a arte de viver é simplesmente a arte de conviver… simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!” Tempos difíceis, imprevisíveis e intermináveis

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