Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Normalidade

Tais Civitarese

​Na última terça-feira, retornei ao trabalho. Tal qual eu fazia quando atendia em pronto-socorro, mas invertidos os papéis, mediram minha temperatura logo à entrada. E só depois nos demos boa tarde.

O hospital estava vazio, calmo. Todos de máscara. Alguns com touca, capote e luvas. Havia dispensadores de álcool em gel para todos os lados. Bem mais do que antes. E algumas mudanças. Uma árvore do jardim que havia caído durante as chuvas mostrava seus novos brotos. Um tapume redirecionava algumas salas de atendimento. Os pacientes, no entanto, continuavam quase os mesmos.

​Nas consultas, os mesmos anseios. Os mesmos olhares ansiosos. Poucas palavras sobre a pandemia. O que os preocupa são outras dores. As dores de antes. As dores inscritas em sua história. No atendimento em saúde mental foi onde menos ouvi falar do vírus. Lá, já estão acostumados a muitos desafios. E a alguns riscos piores…

​Menos do que o uso da máscara, do que o hábito de higienizar as mãos com frequência, ali vemos incômodos de outra ordem. Um tique que não vai embora. Alucinações. A fronteira entre a loucura do mundo real e a do mundo imaginário muitas vezes tênue. Uma luta de gigantes em que o segundo costuma vencer muitas vezes. Fosse a pandemia ou fosse a guerra. Dá no mesmo. O conflito ali é interno. É diária. É anterior e mais intensa que as notícias no jornal.

Essa pandemia que nos fez apertar “reset” no mundo e buscar um “novo normal” vem me mostrando que isso não existe. Nada nunca foi normal. Tudo sempre foi bizarro, dinâmico e cheio de equívocos. Os únicos “novos normais” possíveis somos nós. Normais por um minuto, para logo depois nos anormalizarmos de novo. E assim seguirmos eternamente nos adaptando às contingências.

​Naquele pequeno oásis de cuidados, refleti sobre os sentimentos. Sobre a importância de valorizar o dia. Do cuidar, faça chuva ou faça sol. Frente à explosão, às vezes o que mais machuca é o estrondo interno. E que já existia mesmo antes do fim do mundo…

​Para esses males, jamais existirá vacina. Somente um tratamento duro, continuado, persistente e eterno.

*

Curta: Facebook / Instagram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.