Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

A última cerveja

Benedito Cardoso Vilela, o Bené (Foto/Arquivo Pessoal)
Guilherme Scarpellini
scarpellini.gui@gmail.com

De repente, Bené anunciou que não compraria mais cerveja. Quando a última garrafa fosse aberta, ele fecharia as portas. Depois de 35 anos funcionando — desde que o dono fosse com a sua cara — o bar do Bené, em Araxá, estava com os dias contados.

Os últimos dias se arrastaram feito os movimentos de um velho cansado de lustrar copos lagoinha, como se fossem troféus. Mas a freguesia tinha sede, e o freezer atrás do balcão entrou no vermelho.

Quem antes bebia cinco ou seis garrafas de uma sentada só, agora precisava administrar o consumo. Cada gota de cerveja passou a ser apreciada como se fosse o elixir da vida longa ao aconchegante botequim, que, aliás, já havia assumido um ar de confraria entre amigos, com o nome pomposo de Bene’s Club.

Calhou que a tão adiada última cerveja foi parar no copo de papai. Ou, quase isso. Era abril de 1994, ano de Copa do Mundo, e o bar do Bené, a ponto de pendurar as chuteiras, estava às moscas.

Atrás do balcão, o genioso dono do bar ergueu a derradeira garrafa de Brahma, como se erguesse o caneco do tetra. Seguindo o protocolo da casa, ele enxugou o suor do casco com uma flanelinha, e depois plantou a cerveja estupidamente gelada em cima do balcão, à frente do sedento freguês, papai.

Mas quando Bené foi encostar o abridor na tampa da garrafa, desistiu. Fez melhor: tirou uma caneta do bolso da camisa e rascunhou no rótulo da cerveja o lacônico epitáfio do bar: “aqui jaz”.

A última garrafa de cerveja jamais foi aberta, assim como as portas do bar do Bené, que, daquele dia adiante, permaneceram cerradas para sempre.

Durante anos, papai guardou a última garrafa de cerveja nas diversas casas em que moramos. Ele a escondia tão bem, que nem sabíamos da existência daquele amuleto sagrado em nosso lar.

Até que um dia a nossa vó Márcia foi nos visitar em Poços de Caldas.

Cansada após a longa viagem, a vó Márcia mal podia esperar papai chegar do supermercado, trazendo umas cervejinhas. Ocorre que ele estava demorando demais, e mamãe precisou intervir:

— Alexandre, estamos esperando você trazer as cervejas. — disse ela ao telefone. — Por sorte, encontramos uma perdida no meio das coisas aqui! E já tá no congelador.

Papai chegou a tempo de salvar a garrafa. Mas até hoje ele quase tem um troço só de contar a história da última cerveja.

No rótulo da última cerveja, Bené escreveu: ‘aqui jaz’. (Foto/Arquivo Pessoal)

3 thoughts to “A última cerveja”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.