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Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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O vizinho do 605

Rosangela Maluf

Quase todas as manhãs, antes que eu saísse em direção à garagem, a porta do 605 se abria, e o novo vizinho aparecia quase à minha frente. Há pouco tempo morando no prédio, estávamos, pois, os dois, no mesmo andar; distantes apenas alguns metros, a casa dele da minha. Bom dia, ele dizia com voz meio aguda enquanto colocava o lixo do lado de fora. Bom dia, eu respondia. Boa noite, eu o cumprimentava e boa noite, bom descanso, respondia ele. Assim fomos nos falando por certo tempo, frases curtas, sem sentido algum, nada mais que sorrisos, bons dias, como vamos, boas noites.

Naquela manhã houve interrupção de luz, justamente na hora de maior movimento, quando todos saíam para a guerra diária. Atrasados para o trabalho, segunda-feira, sempre um caos! Irritação, impaciência… sem energia elétrica, o portão eletrônico não funciona. Quem tem a chave da fechadura do portão? Ninguém respondeu. A modernidade nos fazendo escravos da tecnologia, nos tornando dependentes de toda porcaria eletrônica que só serve para nos estressar: num dia é o controle remoto que pifa, no outro a pilha do controle está fraca e, como hoje, pane elétrica – nada do portão se abrir! Aparece o vizinho do 605 com o saco de lixo em uma das mãos e na outra a bendita chave.

Fomos salvos, acho. Alívio geral. Rapidamente posicionados em seus volantes e, como numa largada de Fórmula Um, se foram todos em direção aos seus respectivos fronts de batalha, linhas de frente. Fiquei por último, resistindo em meu bunker pessoal. Falei com o meu vizinho como de costume, o mesmo sorriso, o mesmo bom dia, o mesmo como vai, que bom que o senhor tinha a chave, essas coisas.

Contou-me por alto que tinha problemas com a mãe, velhinha, 90 anos, internada há uma semana por conta de uma invasão de pneumococos em seus debilitados pulmões. Lamentei que ele não tivesse ninguém a quem recorrer e nem com quem contar. Nenhuma ajuda de nenhum parente. Filho único, mãe viúva, os dois em BH, família toda no Paraná. Ele aposentado, cuida da casa, das compras, das contas, das plantas, da mãe velhinha-de-noventa-anos. Pobre homem! Então, até mais, eu digo. Bom trabalho, responde o meu vizinho do 605. Antes de sair o vejo debruçado sobre os dois vasos que ladeiam sua porta. Ele molha, sem pressa, imensas árvores da felicidade, daquelas bem verdinhas, lindas, quase à altura da campainha. Pensei cá com meus botões, quanta paciência em uma só pessoa! Como será para um homem dessa idade cuidar da mãe, dar remédio com hora marcada, virá-la na cama, ainda que a enfermeira venha para dormir com a velhinha-de-noventa-anos, trocar-lhe as fraldas, dar o banho da noite. Difícil para os dois ainda mais considerando a idade dela e idade dele também!

Fui me embora…

No rádio do carro ouvia a CBN e sem paciência para escutar mais desacertos do presidente da república, mudei de estação e deixei que Vivaldi me acalentasse a alma e me tranqüilizasse o espírito já tão tumultuado àquela hora da manhã. Escolhi uma peça para oboé que adorava ouvir. Fechei todos os vidros, liguei o ar, e nem percebi o trânsito lá fora. Me deixei levar. Respirei fundo e fui a caminho da clínica onde tinha um compromisso durante toda a manhã.

Meu dia passou como passam os nossos dias, todos tão iguais. Somos sempre tão parecidos, em nossas rotinas, nossos problemas, desassossegos e inseguranças, nossas dores, doenças, desafetos assim como somos similares em nossas alegrias, esperanças, nossos raros momentos de felicidade plena, nossos afetos e carinhos, pequenos planos, grandes sonhos. Somos todos tão parecidos!

Voltando do trabalho chego em casa cheia de pacotes, cumprimento rapidamente o meu vizinho que também chegava. Estou faminta. Penso em um banho bem quente, água de colônia, pijama, chinelo, comida, TV. Uffa! Tocam a campainha. Olho para o relógio. Faltam dez para as dez. Abaixo o som da tv. Abro a porta. O vizinho!

– Oi…
– Oi,…
– É rápido, vim só pedir um favor. Me desculpe incomodar, mas vou precisar passar a noite no hospital com mamãe. Ela piorou, a febre não cede e o médico preferiu voltar com ela para o CTI. É, é melhor mesmo, ainda mais na idade dela! Mais seguro, não é? Pois é, queria deixar a chave de minha casa aqui. Amanhã de manhã chega de Londrina um amigo meu, o nome dele é Mauro, Maurinho. Falei com ele agora por telefone e não terei como buscá-lo, como sei que vocês acordam cedo, tomei a liberdade de vir falar com você. Olha, muito obrigado, viu, tomei essa liberdade porque você sabe, existem pessoas em quem a gente confia, mesmo sem um motivo especial.

– Claro, nos levantamos mesmo muito cedo, os meninos e eu. Pode deixar a chave ,sem problema algum. Não precisa de mais nada? Nada de cerimônia, viu? Então está bom… que tudo corra bem. E olha, pode ficar tranquilo. Precisando de qualquer coisa, olha aqui… – Peguei um bloquinho na mesinha do telefone e anotei meu número de casa e do celular.

Imagino que o Maurinho chegou de leito, vindo de Londrina, Paraná, pois nem sete horas eram quando tocaram a campainha. Meu filho atende e logo me grita dizendo que alguém procurava por uma chave. Respondo saindo do banheiro ainda de pijama. Encontro o Maurinho na porta. Um rapaz novo, tão bonito, cabelo de ronivon, com ar de cansaço e barba que parecia ter crescido durante a viagem. Quase não nos falamos, pouquíssima conversa: ele, poucas perguntas, eu, apenas respostas necessárias. Entrego a chave e ofereço ajuda. Qualquer coisa que ele precise, pode chamar aqui em casa. Se não estamos nós, estará Francisca. Ele agradece e sai.

Em seguida os meninos saem para a faculdade, retomo minha correria diária e vôo para o computador terminar um trabalho que devo entregar ainda hoje na Associação Mineira de Psicanálise. Nunca fui escritora, não sou e nunca serei, mas adoro uma pesquisa e estou terminando uma longa e cansativa que me deixou morta, literalmente exaurida. A psiquiatra que me encomendou a pesquisa é diretora da clínica onde estou atualmente e como fui indicada por pessoa poderosa, não posso fazer feio. Queria muito que ela contasse comigo para outros trabalhos porque, sabe, eu gosto de ficar em casa, pesquisando. Sou muito curiosa, bisbilhoteira também.

Quanto mais sei, mais quero saber: sobre tudo, sobre todos, gosto de aprender de pequeninas a grandes coisas, fatos curiosos, coisas sérias, coisas fúteis, fofocas… gosto também! Sou perguntadeira por demais. Meus filhos abominam essa minha característica. Brinco com eles dizendo que eu daria boa detetive, investigadora, na pior das hipóteses, diretora de filme policial, dessas tramas deliciosas que me fazem roer as unhas. Penso nos Dez Negrinhos, da Agatha Christie. Amei a história e varei a madrugada até saber quem cometera os assassinatos. Gosto de coisas assim, que tiram o fôlego, adrenalina, cara, muita adrenalina.


Francisca vai até o açougue e me diz que a chave do 605 está no chaveiro de sininhos que fica na porta da copa. Atrás da porta, por que os meninos acham ridículos esses porta-chaves que a gente dependura. Volto para o computador e o telefone toca.

Claro…claro que posso. A chave está aqui, sim, vou lá e verificar. Se estiver aberta, eu fecho e trago para cá. Depois vocês pegam de novo. Nada a agradecer, incômodo nenhum. E sua mãe? Melhor? Que bom… fique forte, vai dar tudo certo.

Me enrosco em um velho peignoir, saio assim mesmo de chinelos. Não resisto à curiosidade de poder penetrar na intimidade daquela casa. Fico contente que Francisca não esteja por perto. O que ela iria pensar de mim? Louca de curiosidade pelo alheio? Logo eu? Abro a porta e entro no apartamento 605 pois, efetivamente Maurinho se esquecera de fechá-la. Por isso o vizinho me ligara do hospital pedindo que eu fosse checar. A persiana ainda fechada permite a entrada de pouca luz. Vou olhando e procuro conhecer um pouco mais sobre o meu vizinho. Por nada eu perderia uma investida, de pura curiosidade, naquele lugar.

Que sala estranha! Paredes verdes, tetos branco, com sancas em alto-relevo, uns florões enormes, entremeados de laços. Os dois ambientes em um só, o pequeno hall com espelhos, a sala de visitas, com poltronas na cor mostarda; arandelas, aparadores, um par de cisnes de porcelana, e alguns livros na parte de baixo. Sabe aquelas fotos antigas, em sépia e branco, ovais, emolduradas por largas tiras de madeira escura que existiam na casa de nossas avós? Duas… duas na parede principal. Pelo estilo da roupa e dos cabelos imaginei que fossem os avós do meu vizinho. Vasos e cachepots de porcelana, havia vários. Todos bem coloridos. Flores! Muitas flores espalhadas por todo lado. Sobre a estante, sobre a mesa, na mesinha de telefone e no parapeito da janela. E tapetes então ? Contei rapidinho, seis! Dois deles persas, com certeza… os outros desses tabacows, de qualidade um pouco melhor, mas sem pedigree.

O apartamento nem grande era, mas parecia maior que o meu, talvez pelas reformas ali já feitas ou pela disposição dos cômodos. Prata, peças de prata, impecavelmente polidas. Um pequeno samovar, dois cinzeiros e uma bandeja com serviço completo de café. Me pareceram portuguesas! Dois lustres em cristal, com lágrimas, pendendo do teto. Um deles sobre a mesa de jantar o outro sobre a mesinha de centro. O maior com porta-lâmpadas, de murano, pintados, imagino que à mão e com cara de obra italiana. Me perguntei se tudo aquilo viria de sua própria família ou se seria ele um rato de antiquários.

Eu não tinha muito tempo, afinal, só estava ali para confirmar se a porta ficara mesmo aberta, conforme ligação do vizinho para minha casa. Já poderia ter ido embora, mas a curiosidade me deixava acesa e continuei olhando os livros na estante, impecavelmente arrumados, distribuídos por ordem de tamanho, coleções de capa dura, com vermelho e dourado e sobre a mesinha lateral, quatro volumes empilhados. Me curvava para um lado e para o outro na tentativa de ler todos os títulos. Droga, deixara os óculos em casa e precisava apertar os olhos para ver alguma coisa de pertinho: Alice no país das maravilhas, Vidas Secas, um Virginia Wolf e outro de capa azul com as letras douradas, já quase pagadas. Nada de poesias, pensei. Muito bem.

Chego o pescoço no corredor e não resisto. Do lado esquerdo o banheiro cuja luz ficara acesa. Luzes e luzes, pois havia duas lâmpadas de teto além de umas seis ou mais circulando o espelho por cima do aparador. Tudo em bege e rosa-antigo, de bom gosto, discreto, ambiente florido com vasos de bambuzinhos naturais pendendo da janela. Por sobre a bancada de mármore, uma dezena de frascos de perfumes. Nada tirei do lugar, mas li, cuidadosamente, (apertando os olhos, claro!) cada um dos rótulos nos vidros impecavelmente limpos. Foi possível ver que entre yardleys e armanis alguns calvinkleins também se faziam presentes na bandeja de prata com forrinho branco de crochê. Um luxo! O jogo de toalhas banho-rosto-bidê, tinha cara de coisa feita por mãe-da-gente, com barras largas de crochê e bordados em ponto de cruz. Não pude deixar de notar o tapete chinês, com flores em alto relevo, todos os tons de bege e rosa. Bonito!

Eu não tinha muito tempo e além do mais deixara a porta entreaberta, assim me sentiria menos culpada pela invasão daquele domicílio.

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Continua.
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