Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

O que não tem remédio

O que não tem remédio por Daniela Piroli Cabral
O que não tem remédio – fonte: Pixabay
Daniela Piroli Cabral
contato@danielapiroli.com.br

Há muito tempo me chama a atenção como o senso comum associa a ideia de se “ter saúde” ou de “estar curado” com a noção de se ingerir medicamentos. Claro que se ter saúde é muito mais do que isso. Mencionei num post anterior uma obra da artista Susie Freeman – Phamacopeia, que denuncia os abusos quanto ao uso de medicamentos no mundo moderno.

Este cenário não foi pintado a partir do nada, ele carrega fortes influências da assimilação do modelo biomédico ocidental na compreensão do que seja saúde, com o forte papel da indústria farmacêutica no mundo capitalista. Quanto mais gente doente, vende-se mais medicamentos. Está aí a quinta versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que amplia o já extenso rol de transtornos mentais, o que nos leva a pensar numa medicalização da própria existência.

Atualmente, há uma certa naturalização do uso dos medicamentos para os mais diversos males, sintomas, dores e angústias. Há medicação para quase tudo: para estados de luto e de tristeza, para  emagrecer, para dormir, para acordar, para se ter prazer.

Claro, não sou contra os remédios, quando bem indicados, têm papel crucial. É inegável que eles curam doenças e aliviam sintomas. O que me chama atenção são alguns aspectos relacionados à cultura da felicidade e do imediatismo em que estamos imersos, e que fazem a balança pender às vezes para o caminho mais fácil, porém não sem os efeitos colaterais.

A questão da automedicação, dos diversos efeitos colaterais (toda medicação têm) e da dependência psicológica são exemplos claros da aceitação acrítica do modelo “prescricionista” de soluções prontas para todos os nossos males, sejam físicos ou mentais. 

O que uma dor de cabeça quer dizer sobre mim mesmo? Por que a enxaqueca aparece sempre em padrões regulares nos domingos à noite? A minha insônia, que me convoca de madrugada, não é igual a da minha amiga, será que o “tratamento” é o mesmo?

Nesta perspectiva, é fundamental que o sujeito se questione sobre seus próprios sintomas e, em alguma medida, os sustentem. Em seu texto “Como engolir a pílula”, Éric Laurent ressalta a necessidade da postura ética do médico na articulação entre às potencialidades dos medicamentos, a demanda do próprio sujeito e a relação com seu sintoma.  

Laurent também diz das quatro formas distintas estabelecidas na relação entre o sujeito e os medicamentos: o phármakon, o placebo, o mais-de-libido e o anestésico, que detalharei num próximo texto.

No momento, acho importante destacar que a crise da Covid-19 evidenciou uma busca incessante pela cura definitiva e por medicamentos eficazes. Neste cenário, por negacionismo eterno da realidade, por busca de soluções e saídas fáceis ou mesmo por necessidade de se ter esperança, os medicamentos acabam mesmo assumindo os diversos papéis acima e estão sendo usados de maneira acrítica e desprovidas de razão.

Tem gente que pode tomar prozac, ritalina, cloroquina, ivermectina, mas nunca estará, de fato, curado. 

Referência:

– LAURENT, E. Como engolir a pílula. Ornicar? 2004.

*

Curta nossa página no Facebook, Blog Mirante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.