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Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

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Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

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Akira: Um coração partido

Rosangela Maluf

Conheci Akira no Aeroporto de Guarulhos. Eu, de férias, indo esquiar em Bariloche e ele indo para Salvador, a trabalho. Por um desses misteriosos encontros ao acaso, sentamo-nos lado a lado, enquanto aguardávamos os nossos voos; o dele e o meu, os dois, atrasados em mais de uma hora. 

Já há algum tempo sentada próxima à janela, eu fazia Palavras Cruzadas, ouvindo Beatles no headphone. Estranhei quando vi aquele homem alto. Alto e muito bonito. Voltei pras minhas Palavras Cruzadas e pensei com meus botões: um japonês assim tão alto? Nunca havia visto. Ele disse qualquer coisa, um cumprimento, não me lembro bem e sentou-se ao meu lado. Abriu o lap top e começou a digitar. A caneta que ele usava entre os dedos escapuliu e caiu no chão, bem ao lado do meu pé. Apanhei-a e com um sorriso, lhe entreguei. 

Agradeceu. Muito obrigado. Começamos a conversar. Tirei os áudios. O que você ouve? Beatles? É a minha banda favorita. Poucas frases. Poucas perguntas. Alguns comentários bobinhos! Você está indo pra onde. Vai aproveitar o inverno. Também adoro o frio. De onde você é. O que faz. Casada? A que horas sai o seu avião. Vamos tomar um café. Temos muito tempo. Fechou o lap top, me convenceu de que havia tempo. Gentilmente, me ajudou com a mochila e fomos tomar um café.

– Akira? Eu perguntei. Japonês? Ah, achei você muito alto; os japoneses geralmente são menores. Jogou basquete? Sorrimos meio sem assunto. Akira em japonês quer dizer, brilhante, alegre, podendo ser, também, usado para mulheres, ele disse. E tenho uma irmã, Yumiko, que significa menina com habilidade em arco e flecha. Rimos novamente. Que falta de assunto…

– Letícia? Ele perguntou querendo saber se o meu nome se escrevia como se falava. Não, respondi, me chamo Laetitia. Minha mama nasceu na Itália e todos em minha família preservam os nomes italianos. Meu nome quer dizer mulher alegre, que transmite alegria, felicidades. Risos sem graça.

Eu olhava encantada para aquelas mãos lindas. Admirava também a pele amarelada, muito lisa, quase sem pelos e a cabeleira absurdamente cheia. Escura, brilhante. Cabelos meio longos, como eu sempre gostara. Era um homem bonito. Inteligente. Culto. Interessante, muito interessante. Médico, assim como eu. Anestesista. Divorciado, como eu. Sem filhos, como eu. Pena que o café durou mesmo só uma hora: anunciaram o meu voo. Adicionamo-nos ao whats na certeza (eu) de que voltaríamos a nos falar. Dois beijos, um de cada lado do rosto, mas um aperto no braço e um pequeno afago na mão. Mais sorrisos bobos e tchau!

Foi tudo rápido, muito rápido. A semana do Seminário em Salvador e minha semana em Bariloche. A nossa volta pra São Paulo. As primeiras saídas, os jantares românticos. A transa muito boa em minha casa ou na dele. A descoberta de inúmeras afinidades e a imensa alegria por estarmos juntos, sempre que nos fosse possível. Concertos, exposições, cinemas, teatro, shoppings, tudo nos atraía e agradava. Muitos livros lidos, muita música compartilhada, muita arte vista, muito sexo …muito amor?

O tempo foi passando e comemoramos nosso quinto aniversário juntos, mas cada um em sua casa, como sempre fora. Os finais de semana sempre compartilhados, assim como os feriados, e as férias – quando as datas coincidiam pra nós dois. Estávamos sempre juntos e felizes com a companhia um do outro. Não sei bem quando tudo começou a mudar. Uma sensação ruim, estranha. Me sentia meio sozinha e a solidão me parecia um prêmio de consolo. Acredito que ele também se sentia assim, mas não falávamos sobre o que nos incomodava. Qualquer assunto, menos o que nos afetava…

Fui ficando cada dia mais calada. Perdendo o entusiasmo e o brilho nos olhos. Arrumando desculpas pra não ter que transar o final de semana inteiro! Perguntei se alguma coisa estava errada: – Não, tudo normal, e você? Também, eu respondia, tudo normal. Cansados, os dois. Muito trabalho, muita pressão nos hospitais, mas não era só isso.

A cama ainda nos unia. Era muito bom, muito! Mas ultimamente vinha me sentindo reduzida a uma mesa, posta para o apetite do macho. Embora eu também gostasse, me sentia como se fosse eu, uma iguaria cozinhando em fogo lento para lhe dar água na boca. Aquilo começava a me cansar. Entretanto, não conseguia separar o verdadeiro amor daquela situação desconfortável!

Havia em Akira um quê de desinteresse. De distanciamento, de frieza, nada muito intenso nem muito presente, mas havia. E a gente não falava sobre isto. Uma perguntinha “está tudo bem” e pronto! Percebia, mas não queria admitir que o tempo transformava-nos, aos poucos, em pequenos pedaços de amor; fragmentos de afeto e ternura do que já havíamos sido um para o outro. Seria mesmo o final? Uma sensação ruim, muito ruim. Fisicamente palpável como taquicardia, boca seca, dor no peito, respiração curta. Medo, insegurança, angústia. Falta de sono. Tristeza.

Um dia, descobri dentro de mim, um emaranhado de fios. Pontas cruzadas. Desenhos irrecuperáveis. Decidi então que tomaria a iniciativa. Colocaria um fim naquilo tudo. Calado ele me ouviu. Calado me olhou e calado concordou.

Achamos que seria bom dar um tempo; nos distanciarmos, nos liberarmos para outros encontros, outras relações. Poderia até ser que, um dia, quem sabe… Naquele momento, estávamos infelizes, ele e eu. E nos separarmos, parecia ser a melhor solução.

Deixamos pra trás o encantamento que durara quase seis anos. Abandonávamos uma convivência preciosa, rara de se conseguir. Deixávamos de lado uma vida a dois, que – se não maravilhosa – nos fora muito agradável e até mesmo feliz, imensamente feliz!

Ficariam as fotos, as mensagens carinhosas trocadas diariamente. Ficariam as marcas de um tempo bom, feliz, intenso, caloroso, mas que chegara ao final, como todo relacionamento envolvendo a paixão…

Hoje faz um ano que nos distanciamos. Ele raramente procura por mim! Não pergunta como estou, o que faço, se estou bem, mas me inunda de informações e fotos sobre ele que, ultimamente, não têm me interessado mais. Cansei de migalhas! De mensagens pelo whats, de postagens infantis no Facebook, de fotos no Insta, lugares por onde viajamos, mas sem as nossas presenças nas fotos. Paisagens. Só.

Ando cansada. Sofri muito, chorei muito, suspirei muito e acho que não merecia passar por tudo isso. Penso nele, Akira. Agradeço, lá no fundo do meu coração, por ter vivido uma experiência assim. Preciso admitir que até sua chegada em minha vida eu jamais conhecera uma paixão: intensa, arrebatadora, de tirar o fôlego. Mas, acabou, passou… ou não?

Chego em casa, já tarde. A festinha na Clínica foi até às onze horas da noite. Amanhã não trabalho, é sábado e não tenho plantão nesse final de semana. Nada programado. Confiro o celular. Nada de interessante. Nenhuma mensagem. Nenhum recado. 

Na manhã seguinte acordo com o telefone tocando. A mãe do Akira me liga, convidando pra almoçar. Não quero visitar, sozinha, o bairro da Liberdade por onde andávamos sempre enquanto dona Yumi preparava o almoço, nas manhãs de sábado ou nos domingos. Agradeço, converso um pouco com ela. Dou uma desculpa qualquer. Prefiro caminhar pelo parque, ouvindo Beatles em meu headphone. 

Faz três semanas que nada sei dele. Não vejo sua página no Facebook porque tenho receio de ver o que não desejo ver. Ainda estou muito triste. Sem coragem de buscar uma companhia, um companheiro, ainda que seja pela internet e seus sites de namoro, de paquera, de sexo virtual. Mas ainda me sinto muito jovem nos meus quarenta e dois anos. Um amor faz falta. Uma boa companhia enriquece nossa vida e anima nossos sonhos. E transar, é muito bom! Vou aprender como se faz pela internet – todas as minhas amigas já sabem com é! Sorrio pra mim mesma…

Tomo banho, me deito pra ver um filme. Não tenho paciência. Desligo a computador e tento ler, não consigo. Vou meditar. Respirar, me acalmar pra ver se o sono vem e se tenho uma noite boa. Me sinto leve. Reconfortada. Respiro muitas vezes: inspiro e solto o ar pelo nariz. Isso sim, me faz bem. Entoo mantras. Apago as velas, mas deixo o incenso de massala, sândalo, ainda aceso. O cheiro me faz bem. Estou bem. Vou dormir.

E penso que, um dia, certamente, ele se dará conta de que, o que guardara o tempo todo em si, de maior, era o meu amor. Era o que lhe restaria de grande, de profundo, de alegre e leve – e tomara que, nesse dia, não seja tarde demais! Meu coração partido esperaria…

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