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O Gafanhoto Torna-se Pesado

O Gafanhoto Torna-se Pesado

“Não se é de parte nenhuma enquanto não se tem um morto debaixo da terra”

Gabriel García Márquez

Victória Farias

Ana acordou naquela manhã duvidando da realidade. Não que tivesse dúvidas de que estivesse viva, mas carregando uma leve – e insistente – impressão de que tudo a sua volta não estava.

Não podia dizer nada sobre o dia, era uma manhã qualquer de quinta-feira. Mas, antes de sair da cama, havia se perguntado 20 vezes se aquilo era mesmo real. 

Era uma sensação estranha. Tinha certeza de que não estava sonhando – já tinha tido sonhos lúcidos antes, mas nada parecido com aquilo.

Olhou pela janela e viu o habitual: o farfalhar das árvores, carros, motos, viaturas. Mas, ainda assim, havia alguma coisa diferente, algo que não conseguia decifrar, que não encaixava. 

Foi acordada do frenesi por uma mensagem no celular. Era seu namorado, perguntando alguma coisa sobre a faculdade. Não respondeu, colocou o telefone no bolso e foi fazer o café. Tentava, mas, por algum motivo, não conseguia formar a feição dele em sua mente. Desistiu.

Não pensou muito sobre o assunto pelo resto da manhã, embora sentisse alguma coisa no ar. Talvez estivesse doente. Estava morrendo, chegou a conclusão – prognóstico: uma falta quase incessante de vida. Embora – percebeu – o pulso estivesse normal, e as maçãs do rosto rosadas como sempre.

O trabalho correu normalmente. Mandou e-mails como se fossem importantes e fez telefonemas que ela secretamente acreditava que mudariam o mundo. Uma pena – pensou. 

Por trabalhar no administrativo de uma universidade, o único jeito de mudar o mundo era se decidisse mudar o globo terrestre ornamental de lugar em sua sala. Era trágico, mas ela não se importava – pelo menos era o que dizia. 

Foi na hora do almoço que percebeu que não tinha respondido ao namorado. Depois de um xingamento mental, foi caminhando até a biblioteca da universidade para devolver um livro. O Homem do Castelo Alto, que conta como seria se o Eixo tivesse ganhado a Segunda Guerra Mundial. Péssima escolha para uma leitura noturna. 

Indo até a prateleira de ficção, recolocou-o no espaço vazio. Estava de saída quando um título de um livreto, de uma página e meia em letras grandes, chamou sua atenção. O Gafanhoto Torna-se Pesado. Interessante – ela pensou. 

Após tirá-lo da prateleira, olhá-lo de todos os ângulos e constatar que nunca tinha visto nada como aquilo na vida, leu as palavras iniciais, que diziam: “Ana acordou naquela manhã duvidando da realidade. Não que tivesse dúvidas de que estivesse viva, mas carregando uma leve – e insistente – impressão de que tudo a sua volta não estava.”

O telefone no bolso da sua calça tocou – era o namorado, perguntando se jantariam juntos naquela noite. – Sim, te vejo mais tarde. Neste instante, se lembrou dos seus olhos castanhos, cabelo cortado rente a cabeça, sorriso de canto de boca. Não havias mais dúvidas.  

Recolocou livro no lugar de origem e saiu pela biblioteca se perguntando se o seu IFood havia chegado, afinal, estava tão preocupada em descobrir o que era real que se esquecera do que realmente importava: por Deus, estava faminta!

Obs: O Homem do Castelo Alto e O Gafanhoto Torna-se Pesado são, basicamente, a mesma obra. Criada pelo autor PDK, fala sobre como seria se o Eixo tivesse ganhado a Segunda Guerra Mundial, mas exploram um universo dentro de vários, ficando difícil comparar e distinguir uma coisa da outra. Sendo assim, O Gafanhoto Torna-se Pesado é uma alusão a obra O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick.

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