Skip to main content
 -
Daniela Piroli Daniela Piroli

Psicóloga clínica, graduada também em terapia ocupacional, curiosa sobre a vida e o mundo humano.

Eduardo de Ávila Eduardo de Ávila

Advogado e Jornalista sugere debater e discutir – com leveza – situações que vivemos no nosso dia a dia.

Guilherme Scarpellini Guilherme Scarpellini

Jornalista que se interessa por tudo o que a todos pouco interessa. E das beiradas, retira crônicas.

Rosangela Maluf Rosangela Maluf

Professora universitária na área de marketing e nas montanhas de Minas lê, escreve e sonha!

Sandra Belchiolina Sandra Belchiolina

Psicanalista, consultora de viagens, amante da vida, arte e cultura na sua diversidade. Vamos conversar de viagens: nossas e pelo mundo.

Taís Civitarese Taís Civitarese

Pediatra formada pela UFMG. Trabalha com psiquiatria infantil e tem um pendor pela filosofia.

Victória Farias Victória Farias

Jornalista e estudante de Relações Internacionais, além de editar o blog fará uma crônica semanal do nosso cotidiano.

Eu escolhi esperar

Foto: Malte Mueller - Eu Escolhi Esperar
Foto: Malte Mueller – Eu Escolhi Esperar
Guilherme Scarpellini

Uma amiga escolheu esperar. Ela esperou os pais caírem no sono para encontrar o amor proibido, que entrou pela janela. O vizinho da frente viu tudo. Viu, porque também escolheu esperar, espiando na janela.

Esperou o primeiro ronco da esposa adormecida e alcançou a garrafa escondida no armário. Bebeu como se não esperasse o amanhã.
 

Todo mundo sabe – exceto ele: sempre ele – que a senhora do fim da rua também escolheu esperar. Ela espera o pobre coitado do marido sair pra trabalhar, e a campainha começar a soar: ora o encanador, ora o professor de ioga, ora o jardineiro e, por vezes, todos eles a um só tempo e sem tempo pra acabar. Pobre mesmo do marido que esperou a reunião terminar.
 
Doutro lado da rua, marido e mulher resolveram esperar — juntos. E esperaram o dia em que ao menos conseguissem se aturar. De nada adiantou.

Ela agora volta pra casa da mãe, e ele foi morar longe pra nunca mais voltar. Assim escolheram esperar a vida passar — sozinhos.

Outra amiga tirou a sorte diferente. Ela escolheu esperar ainda cedo. Esperou por nove meses até a primeira filha chegar. E depois esperou mais. E mais. Hoje não há nada que a faça mais feliz na vida que esperar.

Espera todo mundo no domingo pra almoçar: seis filhos, nove netos e um bisneto, que todos esperam chegar.

Mas nesta rua há um desses homens de fé. Veste o costume alinhado, os sapatos cintilando e a bravata sempre apertada no pescoço. E adivinha? Escolheu esperar. Mas esperou sentado.

Pois ninguém apareceu pra escutar a palavra sobre Terra quadrada, Adão e Eva e agora mais essa: a campanha do “eu escolhi esperar” até o casamento. 

Muito diferente da professora da rua. Essa, sim, todo mundo quer escutar. Ela ensina o abecê, a fazer contas, e todo mundo faz de conta que aprende.

Pena que o Brasil escolheu esperar. E nunca investiu nela, o único método 100% eficaz contra a burrice precoce. 

E cá no meio desta rua escura estou eu. Claro: escolhi esperar. Espero que um dia desses este mundo pare de girar, que eu quero descer.

 

Enquanto isso, eu escolhi esperar – não esperando.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.