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Dona Glorinha vende tudo

Foto: Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/Livoca-242508/?utm_source=link-attribution&utm_medium=referral&utm_campaign=image&utm_content=2835796">Olivia Gonzalez</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&utm_medium=referral&utm_campaign=image&utm_content=2835796">Pixabay</a> - Dona Glorinha Vende Tudo
Foto: Imagem de Olivia Gonzalez por Pixabay – Dona Glorinha Vende Tudo
Taís Civitarese

Assim indicava a placa. Dona Glorinha estava de mudança para o asilo e pôs à venda,  aparentemente, tudo o que possuía.

Lá, precisaria de poucas coisas. Dois jogos de cama, dois de toalha, alguns vestidos, um sapato e seus remédios. Dona Glorinha precisava do dinheiro.

Quanto mais arrecadasse, por mais tempo sua permanência estaria garantida. Anunciou seus móveis, enxoval, fogão, geladeira, tapetes e adornos. Colocou no bolo também alguns calçados e roupas.

O “bota-fora” movimentou a cidade. Fizeram fila na porta de sua casa para negociar as mercadorias. Alguns, já saíam de lá carregando as aquisições.

Outros, mandariam o carreto buscar mais tarde. Nessa brincadeira, Dona Glorinha ia embolsando a ‘grana’.

Sem o menor remorso, via ir embora cada fragmento que, outrora, compôs sua vida.

A batedeira de fazer bolo para os filhos, os presentes que ganhara do marido, os vestidos que um dia lhe couberam e que cintilaram por alguns salões de festa da cidade.

No asilo, nada disso seria necessário. Ela queria conservar seus livros. Mas estes, uma vez que já estavam lidos, também eram cedidos se a proposta valesse a pena.

Se o freguês demonstrasse interesse e fizesse a oferta, levava. Vendeu, inclusive, o camafeu que ganhara de Jairo.

Aquele, escondido há tantos anos, secretamente guardado. Não lhe fazia mais sentido.

Um colecionador de antiguidades chegou ao bazar e procurou por manuscritos antigos, livros, revistas e jornais de época.

Dona Glorinha remexeu uma pilha poeirenta e encontrou o que o homem queria. Vários artigos da década de 40, papel desintegrando, ao que os olhos do cliente brilharam.

Estavam lá, entre as velharias, os jornais “Tribuna” e a revista “Opinião”.  

O homem ofereceu um chumaço de grana por eles. Iria emoldurá-los com vidro cristalino e pendurar na parede de seu pomposo escritório.

Exibi-los tais como relíquias do profissional culto e poderoso que era. Em meio aos montículos das poucas coisas que lhe restavam, estandartes do mais alto exercício do desapego, dona Glorinha sentenciou: “Tribuna” está aqui, você pode levar. Mas “Opinião” eu não vendo.

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