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A vida íntima de Laura (em homenagem a Clarice Lispector)

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
Daniela Piroli Cabral
contato@danielapiroli.com.br

Logo quando minha filha começou a falar, por volta dos dois anos, percebi que poderia ter adiado um pouco o estímulo a sua fala.

A minha dupla formação na área da saúde, em Psicologia e em Terapia Ocupacional, tinham me fornecido bastante recurso para saber estimular o desenvolvimento da linguagem e a independência infantil. No entanto, quando começou a falar, Laura não parou mais. 

Passando pelas dislalias circunstanciais e pelos monólogos coletivos, ela nunca teve problemas com a fala. E, desde então, mantenho o registro, num arquivo no celular, intitulado “pérolas” da Laura.

Atualmente, ela está na fase da vergonha e do segredo, não me deixa contar para ninguém as coisas que fala, não pode nem sonhar que estou escrevendo este texto.

Mas, como faz parte do papel materno fazer os filhos passarem vergonha, cá estou eu, escrevendo mobilizada em suas falas.

Quando tinha por volta dos três anos, ela começou a dormir na casa da avó, geralmente nos fins de semana.

Num domingo de manhã, fui buscá-la na casa de minha mãe e testemunho a seguinte cena: No seu papel de avó babona e coruja, mamãe a questiona: “Laura, da onde você tirou tanta fofura e beleza?” e ela responde, sem humildade:Nasci assim”.

Já no Natal de 2014, Laura pegou uma virose fortíssima, que me obrigou a passar quatro dias “de molho” em casa, envolvida com antitérmicos, antieméticos e limpeza de vômitos nos colchões, tapetes e cortinas.

Também me obrigou a exercitar muito a paciência e aprender a lidar com a falta de controle que a maternidade nos coloca, pois nos ausentamos das comemorações de fim de ano.

Ela, já com quatro anos e pouco e no auge da fase dos porquês, me questiona: “Mamãe, por que quando as crianças estão doentes, as mães ficam boazinhas?”. Não aguentei a lógica daquele raciocínio e caí na gargalhada.

Evidentemente, fiz um breve exame de consciência para avaliar minhas atitudes de mãe malvada.

Durante uma das refeições do ano de 2016, conversávamos, eu e ela, sobre família e relações familiares, sobre tios, primos, avós.

Nesta conversa ela elegeu o marido da minha mãe, meu padrasto, como “avô de segundo grau”. E, logo em seguida, atirou (talvez mobilizada pela separação recente dos pais):

    – Mamãe, eu não vou casar nem ter filho.

    – É mesmo, filha? – respondo “ingenuamente”. – Quer dizer que eu não vou ser avó?

    – É mamãe, é bom que você não vai ficar velha.

Obviamente, ri sem medidas sobre a perspectiva do envelhecimento baseada em papéis familiares e não no próprio passar do tempo.

Sempre vamos caminhando até a escola e aproveitamos para conversar. Qual não foi a minha surpresa quando, na semana passada, ela olha bem dentro dos meus olhos e diz:

Mamãe, você é a pessoa que eu mais confio. Mas eu confio também numa coisa chamada espelho.

Paralisei o pensamento e também o meu passo e dei um abraço nela ali, quase no meio da rua, pensando na maturidade daquela fala.

Pensei também que talvez não precisarei investir em uma psicoterapia para ela, dado o nível de autoconfiança e autoestima da criança.

 

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