Precisamos falar sobre o Padrão Europeu

As afirmações do atacante Diego Costa, em relação ao CT de Vespasiano, turbinaram o tráfego das redes sociais nos últimos dias.

Misseis teleguiados foram disparados de um lado a outro da lagoa, reacendendo a chama daquilo que é parte fundamental do futebol: a gozação, a ironia e a competição pela melhor piada com o time alheio. Ufa… Apesar da higienização politicamente correta, é o futebol dando sinais de resistência.

No entanto, precisamos tocar em um assunto sério agora. Em pouco tempo, assistimos, mesmo sem perceber, dois ataques ao povo que está do lado de cá da linha do equador. A primeira, veio do próprio colonizador. As palavras do virtuoso Mpabé afirmaram que o futebol sul-americano não é “tão avançado como o europeu”. A segunda veio do próprio colonizado, afirmando o “padrão europeu” como métrica de excelência.

Devemos sempre nos lembrar que o velho continente produziu Nietsche, Sartre e Zidane, mas também disseminou totalitarismos, colonizações homicidas e genocídios.  De qual padrão europeu estamos falando? Da forma de dizimar nações indígenas em seu próprio território? Da técnica utilizada para saquear as riquezas materiais e culturais da América Latina? De construir catedrais imponentes com nosso ouro?

Confesso que, atualmente, essa ode ao futebol europeu tem o cheiro de uma nova forma de colonização, e todo processo colonizador é mais eficiente quando convencemos as ovelhas que o lobo surgiu para ajudá-las. Não se trata aqui de um revanchismo tolo, mas de desmistificar a ideia de que do lado de lá é possível encontrar uma raça pura e hiperdesenvolvida, à qual devemos nos submeter, em corpo e alma, para também alcançarmos algum tipo de sucesso. Essa ideia (que também surgiu lá) é anticientífica e sociologicamente equivocada, pois a comparação entre povos diferentes é impossível, a não ser quando o objetivo é a dominação.

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Precisamos descolonizar o pensamento, pois toda colonização é uma forma de captura. Boaventura de Souza Santos nos apresenta as Epistemologias do Sul, uma forma de enxergar o mundo a partir do conhecimento produzido pelos povos originários. Precisamos encarar o processo colonizador não como algo pronto e acabado, mas como um ação ainda em curso, em constante atualização, atentos para que nossas miseráveis riquezas não sejam, mais uma vez, saqueadas. Esse é o fundamento do pensamento decolonial.

Mas, diante disso tudo, quem sou eu, não é mesmo? Talvez apenas  um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e vindo do interior, mas trago de cabeça uma canção do rádio em que um antigo compositor baiano me dizia: tudo é divino, tudo é maravilhoso. 

2 thoughts to “Precisamos falar sobre o Padrão Europeu”

  1. Concordo plenamente, e adiciono nessa conversa , essa modinha do futebol moderno0, aonde todos têm que jogar da mesma forma ( JOGANO EM CASA PROATIVO, JOGANDO FORA REATIVO, BAIXAR LINHAS E COISA E TAL…) SEM ESQUECER DA COLONIZAÇÃO DOS TÉCNICOS PORTUGUESES.

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