Clube da Esquina: um disco ético

Quem não sabe da diferença entre música de consumo e arte é, provavelmente, alguém que não distingue o sabor de uma feijoada enlatada e outra feita no fogão à lenha. A primeira, produzida em larga escala, não se preocupa com a qualidade e a feitura. O único desafio  é não matar o consumidor de forma instantânea. Afinal, isso daria problemas judiciais muito graves. Mas, matá-lo lentamente, devido ao consumo pela vida, não tem problema, pois é intenção industrial oferecer o veneno para depois vender caro o remédio.

Mas, por sorte da estética, ainda existem os resistentes, aqueles que sabem diferenciar o sabor de uma boa feijoada caseira, que começa a ser saboreada antes mesmo dos ingredientes serem colocados na panela. A composição desse sabor privilegia a paciência ao acender o fogo, a sabedoria para controlar o calor das chamas, a forma de preparar o cozido, a sensibilidade parar separar as melhores partes e, além disso tudo, o segredo habilidoso de quem cozinha, com aquele elemento imponderável que beira o misticismo do sagrado segredo que toda cozinheira tem.

Essa é a grande diferença da música produzida pelo Clube da Esquina daquelas que, agora, tal qual pragas do Egito, infestam grande parte das estações de rádio. É por isso que chamamos esse tipo de construção sonora de “música comercial”, pois ela surge, apenas, como resultado da relação entre oferta e procura. Composições feitas, unicamente, para vender. Os shows, geralmente eventos pirotécnicos, estão mais preocupados com o patrocínio do que a construção musical em si. E isso é proposital, pois esses eventos de entretenimento são construídos para vender música, cerveja, destilado, e pendrives cheios de fumaça que agora são chamados de cigarros eletrônicos. Tudo isso misturado às campanhas políticas de Estados e Prefeituras. Não há limite para a indústria cultural.

Nadando contra a corrente, a eleição de Clube da Esquina como o melhor disco brasileiro de todos os tempos é um refrigério no meio do deserto musical no qual vivemos. Detalhe importante: quase todos os discos que constam no top 10 foram lançados durante a década de 70, excluso o Sobrevivendo no Inferno – Racionais MCs – que mereceria um outro artigo desse escriba.

Percorrer as faixas do Clube da Esquina e segurá-lo nas mãos é um gesto ético, pois ela é mais arte que ciência. É por isso que viver é um ato est-ético. “Viva como se estivesse criando o tempo todo”, eis aquilo que deveria ser a grande premissa da vida. Escutar essa música barroco-contemporânea produzida em Minas Gerais, com pitadas de Jazz equilibradas pelas Violas de Queluz, sacudidas pelos tambores afro-mineiros, nos desperta para a necessidade de lutar por tudo aquilo que é Bom, Belo e Justo,  um encontro oracular com nossa essência.

Milton Nascimento é um emancipador de almas. No encontro das esquinas, faz da amizade a liberdade criativa, elemento de carência em nossa sociedade produtiva. Ele é o próprio Epicuro do tempo presente, levando seu Jardim musical onde o povo está. Aliás, tal qual o filósofo, sempre com a amizade como elemento principal de suas canções. Afinal, “de todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade”.

Comemorar esse título, após 50 anos, é unir todos os seres humanos, independentemente  da cor da camisa ou das preferências futebolísticas, nesse Jardim-esquina que é Minas Gerais.

Em tempos tão sombrios como os nossos, tanto no terreno artístico, com barulhos sonoros de estética duvidosa, quanto no terreno político, com ameaças explícitas à democracia e à liberdade, precisamos escutar, a todo momento, o Sábio Milton Nascimento e simplesmente “deixar o coração bater sem medo”…

3 thoughts to “Clube da Esquina: um disco ético”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *