Nosso pecado: deixar de ouvir os poetas

O mundo piorou demais quando deixamos de ouvir os poetas. Desde então, o desencantamento tomou o coração dos homens, trocando a palavra pela cifra.  A partir daí surgiram os coachings, sacerdotes da sociedade do cansaço, e os influencers, pastores da sociedade do espetáculo. Quando ouvíamos um verso aqui e outro acolá, ainda estávamos a salvo desses cavaleiros do apocalipse.

Na educação, crianças e jovens são incentivados na construção de aplicativos e robôs, mas não recebem o mesmo investimento quando desejam construir poesia. Na escola, eles sofrem com ansiedades, automutilações, ideações de autoextermínio, depressões de toda ordem e a tão proclamada inteligência artificial é incapaz de resolver as questões humanas.

Dizem que Freud, em suas últimas confissões, chegou a afirmar: – onde quer que eu vá , um poeta já chegou lá antes de mim. E não é mesmo? Quem primeiro descobriu o inconsciente foi a arte. Na Bíblia, ao narrar a ressurreição, o discípulo sem nome chegou ao túmulo antes de Pedro. O texto diz, apenas, que ele era o discípulo que Jesus tanto amava. O amor sempre chega primeiro, mas também sabe ceder a vez para o outro.

Quem não viu Tostão jogar perdeu metade da vida. Era um poeta da bola. Um cantadô, representante da cultura brasileira, com gingando e miscigenação. O toque na bola como um traço de Rembrandt. Quem nunca viu Reinaldo, perdeu a outra metade. O craque seguia a mesma toada, com a velocidade, convicção e pontaria de Fernando Pessoa.

Não se trata de saudosismo tolo. É apenas constatação histórica. Basta olhar os noticiários esportivos cheios de cifras, dívidas e capitais. Às vezes sinto-me confuso se estou em uma página de futebol ou da bolsa de Nasdaq. O futebol vem perdendo poesia, na medida em que aumenta em praticidade financeira.

Ativos vendidos, dívidas crescentes, marketing pesado, janelas que abrem e fecham ao toque do deus-mercado. A alma, essa morada poética que herdamos do Éden (Jardim das delícias),  agora está presa ao vil metal. O futebol foi do ócio, tempo livre de criação, para o neg-ócio, negação da liberdade criativa.

Não sai da minha cabeça que, enquanto caminhávamos norteados pelo Oriente de Gil e dançávamos sob o Samba da Benção de Vinícius, o estado das coisas era outra. Agora, um caldo de cultura nos invade, matando tudo aquilo é belo, demorado e poético, em nome de uma ordem prática que nos rouba o tempo da contemplação.

Impossível não relembrar Friedrich Schiller e reafirmar que contra a estupidez, até os próprios deuses lutam em vão.

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