Churrasco sem carne e futebol sem bola: a era dos grandes vazios

Meu avô, quando via uma pessoa desanimada, cabisbaixa, com cara de quem acabou de comer um prato de linhaça, sempre dizia: – oiá lá… fulano não tá bem não… parece que ele está sem “sustância”. Sem nunca ter lido filosofia, ele estava me dizendo: – ali caminha um ser humano vazio de algo, desapropriado de si, necessitado de uma coisa que o sustente. Em síntese, percebia um humano que parecia estar morto em vida, alguém sem a essência vital.

Na Filosofia, uma das primeiras coisas que discutimos é o problema da essência. Aprendemos com os pensadores que falar de algo essencial é pensar naquilo que é insubstituível para que a “coisa seja o que ela é”. Responsável pela sustentação do ser, a essência é tudo aquilo que não pode faltar. Exemplo, para o bolo ser “de laranja” não pode faltar o sabor laranja.

Caminhar sobre a face da terra negando a essência das coisas é a especialidade de nosso tempo. Estamos formando peritos em esvaziamento de sentido. Talvez isso explique o crescimento das doenças psíquicas, principalmente entre crianças e jovens.

Trazendo o assunto para nosso interesse: qual seria, então, a essência do futebol? O que não poderia faltar em uma partida?  Tentarei, aqui, uma resposta. Logicamente, como toda resposta, ela será passível de verificação e contestação. No entanto, em minha humilde opinião, não existe futebol sem bola e sem jogadores, essências materiais e humanas fundamentais em qualquer partida. O que deriva daí, tanto faz.

Se tiver uma bola rolando de pé em pé e algumas pessoas correndo atrás desse desejo existencial, tem futebol. Existe pelada sem goleiro, jogo sem juiz, brincadeira com embaixadinha, gol a gol, futebol de três, de cinco e por aí afora tantas incontáveis modalidades nesse mundo de meu Deus. O fato é que, onde houver uma bola e dois ou mais reunidos em meu nome, ali eu estarei, disse o Futebol.

No entanto, é preciso ter cuidado. Nossa era, especialista em tirar a essencialidade das coisas, também tentará colocar em risco essa verdade fundamental. Não tenho dúvidas de que os hereges contemporâneos, em pouco tempo, tentarão implementar uma grande inovação futebolística: a bola virtual.

Já imaginou? Jogadores entrando em campo, colocando os óculos fornecidos por alguma empresa especializada em destruir a humanidade e a peleja começando? Nesse jogo do futuro, a bola não passará de um holograma conduzido por um jogador que, de forma ridícula, chutará o vento em direção ao gol. E você não precisará nem ir ao estádio. Poderá acompanhar tudo de onde está, só acionar o botão para que a diversão comece.

Não tenho dúvidas de que isso acontecerá um dia, pois a galerinha que vem por aí é cheia dessas ideias mirabolantes. A grande questão filosófica é se ainda chamaremos isso de futebol.

Tudo é possível na era que pode ser chamada de “a época do vazio”, onde não existem verdades que durem uma postagem e onde as músicas que ultrapassam os trinta tiktokers de segundos são desprezadas. Acho que isso não me assusta mais. O que me deixa intrigado é o fato de algumas pessoas colocarem esse pensamento ao lado de palavras como progresso e evolução.

É preciso manter a calma, pois tem um lado positivo nisso daí, tá okey? Entraremos para a história como aqueles que retiraram o álcool da cerveja, a lactose do leite, a gordura do torresmo, o motorista do carro, a carne do churrasco, a corporeidade do sexo, a contestação do rock, o conhecimento da escola, o esforço da aprendizagem, a adolescência do limite de 17 anos e a bola do futebol.

Daí pra frente, meu amigo, tudo é possível… Fomos longe demais, inventamos até um cigarro eletrônico (que não precisa de fósforo para ser aceso) e gente  jurando ser mãe de samambaia.  Resumindo, somos a geração que mata, diariamente, a essência das coisas. Estamos mexendo em áreas que não damos conta de sustentar, chocando o ovo da serpente. Depois, vamos nos perguntar o motivo pelo qual morremos envenenados.

Retirar a pelota do futebol e colocar um holograma no lugar é apenas uma questão de tempo e investimento.

Quando isso acontecer, só nos restará a confiança de que um meteoro nos salve, na certeza de que o apocalipse não será mais um medo, mas sim uma grande esperança.

One thought to “Churrasco sem carne e futebol sem bola: a era dos grandes vazios”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *