Função Paterna

A paternidade não é tarefa fácil. Por isso que entendo perfeitamente quem prefere um gato, um cachorro ou uma Iguana, mas respeito profundamente aqueles que escolhem (e podem), por meio da prole, prolongar sua existência genética nessa terra inóspita.

No intento da função paterna, duas ações são imprescindíveis: vacinar os filhos e ensiná-los a jogar Botão. A primeira tarefa nos é dada como um dever racional, a segunda como questão moral.

Uma criança que cresce sem saber a arte de sustentar uma palheta diante do mundo perdeu metade das habilidades necessárias para se tornar um adulto saudável. Isso é tão importante que deveria constar como critério obrigatório nas entrevistas de emprego: – quantas horas de sua vida você se dedicou ao jogo de botão?  Seria bem mais fácil selecionar os mais aptos para a vida adulta a partir dessa pergunta. Já perderiam a vaga aqueles que não entenderam a importância da questão. O restante seria classificado a partir da quantidade de horas dedicadas ao jogo.

Caso houvesse um empate, nada melhor que decidir em uma partida de três gols, típico desafio, atividade propícia para separar homens de meninos.

Algum astuto deve, então, estar se perguntando: – mas e os títulos? E o conhecimento? E a formação? Esquece…. Preocupa com isso não… Depois das metodologias ativas e do coaching educacional, descobrimos que todo mundo é capaz, que o discípulo sabe mais que o mestre, que o universo é lindo, que é preciso ter mais Gratiluz na vida e que aprender é apenas um ato lúdico de puro prazer! Olha só… Estamos vivemos um novo iluminismo e apenas os incrédulos arcaicos que não entenderam isso ainda.

Diante disso, talvez a forma de selecionar humanos aptos à vida laboral e ao pleno exercício da cidadania, tarefas fundamentais da educação básica, seja mesmo separar aqueles que jogaram Botão na infância daqueles que não aprenderam essa arte ancestral, trazida pelos samurais periféricos que formaram uma geração capaz de acreditar que o ardor do mertiolate trazia a cura para todos os males da existência, incluindo depressão, espinhela caída e tampão do dedo, arrancado em uma pelada na rua de paralelepípedo.

Quem não é capaz de entender a importância ética de falar “prepara” antes de chutar ao gol, já é percebido, em qualquer ambiente que se encontra, como um sujeito detentor de uma moral duvidosa, mostrando a capacidade imoral de aproveitar-se da distração alheia para se dar bem em qualquer situação.

A precisão motora, o raciocínio tático, o controle de bola, o passe certeiro e o momento certo para dar a “tirada” são habilidades que o bom botonista aprende em casa, sendo extremante uteis para lidar com a vida cotidiana, onde cada milímetro do campo é importante para a conquista.

Tenho certeza de que Adão, ao abandonar o paraíso, se entristeceu não porque agora ele tinha que trabalhar para “comer o seu pão com o suor de seu rosto”, mas porque ele perdeu a companhia de seu pai para jogar aquela partidinha de futebol de botão.

Para aqueles que ainda almejam a conversão, basta se ajoelhar vestido de um sentimento religioso diante do estrelão e contemplar umas das maiores belezas que a paternidade pode oferecer: a visão dos botões espalhados pelo campo, marcados pelo divino tic tac das palhetas em direção ao gol. Tal qual trombetas angelicais, selando a comunhão entre pai e filho, no Botão fortalecemos a aprendizagem diária, suportando as derrotas e as vitórias que a vida, essa misteriosa dádiva pelejante, nos oferece durante nossa curta e única existência.

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