O Goleiro Fábio e o Desencantamento do Futebol

O capitalismo trabalha na dicotomia encanto/desencanto. As duas dimensões são importantes nessa lógica produtiva. Explico: o fetiche da mercadoria, o desejo de comprar um estilo de vida é o objetivo da ausência que toda vitrine provoca em nós. A ideia de permanência é insustentável. É preciso desejar mais, mais e mais… Por isso que o desencanto com o produto deve vir logo em seguida, justamente para que você não se contente com aquilo que tem. Daí surge a necessidade de mais uma compra, da fabricação de outros desejos artificiais etc.

Max Weber denunciou essa faceta da modernidade ao nos mostrar que, através do desencantamentomundo, a realidade deixa de ser concebida como permeada por forças ocultas que podem ser manipuladas magicamente para ser controlada apenas através da ciência, da tecnologia e do capital.

A demissão do goleiro Fábio, ídolo da torcida cruzeirense, nos mostrou a ideia central de um clube-empresa que, logicamente, se firma como mais empresa do que clube. O conceito de profissionalização administrativa se funda, basicamente, na retirada daquilo que é passional, emotivo, causador de vínculos vitais, visto como deturpadores dos bons resultados econômicos. Ao contrário do que é anunciado, a empresa visa, apenas, o lucro. Simples assim. Essa é a lógica do capital.

A demissão, em si, não é o problema, mas a forma com ela é conduzida. O desrespeito à história, aos títulos conquistados, à relação com os torcedores se mostra como estratégia administrativa. Com isso, aqueles que privatizaram o clube dizem aos demais: aqui não caberá a paixão, as relações sentimentais, pois o capitalismo não tem compromisso moral, não se liga a valores que não estejam ligados à Bovespa.

O mundo do futebol, antes tomado pela magia, pelas forças ocultas que moviam as pernas dos jogadores, agora é terreno da burocracia racionalizante do lucro. A história não será mais contada se não for contabilizada.

É por isso que o cliente tem sempre a razão, mas uma racionalidade que se fundamenta apenas na possibilidade da compra, da troca comercial que se sustenta em um mundo desencantado. É assim que fizeram com nossas matas e com nossos bichos: uma árvore centenária vira móvel, um bicho cheio de vida vira sapato de couro. Sem o desencantamento, o capital não conseguiria colonizar a última fronteira do território inimigo: o inconsciente.

Tem gente que, por causa do lucro, vende a mãe. Outros, vendem o ídolo. Torcedor, seja bem-vindo ao futebol moderno!

17 thoughts to “O Goleiro Fábio e o Desencantamento do Futebol”

  1. Será que Ronaldo veio mesmo para melhorar o Cruzeiro ??? Ou acabar com ele??
    E ainda trouxe esse perna de pau do Paulo André para ajudar. Vamos nação azul, todos os sócios torcedores cancelar o programa e Parar de comprar nas lojas do clube.

    1. O futebol brasileiro encontra-se decadente! Não há mais revelações de jogadores ou técnicos. Recorre-se a técnicos e jogadores estrangeiros. Seremos coadjuvantes em mais uma Copa do Mundo!

    2. Não vai adiantar boicotar, quem está disposto a gastar 1 bilhão e 400 milhões, sabe que não vai pagar esta dívida com sócio torcedor, sócio torcedor é um grão de areia no oceano, se valesse alguma coisa o clube não estava quebrado. O Fábio teve a oportunidade de comprar o Cruzeiro, mas não quis a exemplo do Pedro Lourenço, e sabem porque? Porque eles sabem que é gastar demais para fazer alegria para sócios torcedores e os demais torcedores, eles pensam é neles, e ainda fazem de vítimas. Que palhaçada!

    3. Quando Nelinho , Eder, trocaram de clube..qual a razão se não financeira,.. .existia amor ao clube, aos torcedores, a historia construida..menos ne escritor,…

  2. Quanta assertividade. É sobre isso que nossa vida tem se transformado há muito tempo e o futebol, uma paixão que herdamos dos nossos Pais, não fica de fora. Obrigado pela reflexão.

  3. Excelente texto estruturado com rara sofisticação argumentativa.
    Com a SAF modelada no cruzeiro, promoveu-se de vez o divórcio entre a identidade do clube e a paixão motivadora do torcedor.
    Uma pena…

  4. Apesar de ser atleticano, antes de tudo eu sou um amante do futebol e de seus bons jogadores. O Fábio sempre foi um grande atleta dentro e fora de campo e não merecia este tratamento cruel no fim de carreira. Está SAF não cheira bem e não passa de mais um instrumento para se ganhar dinheiro. Sendo assim, parabéns ao autor deste excelente texto. Quanto tempo durará está turma insensível que Agora comanda o Cruzeiro ?

    Washington castro

    1. Sua visão possui apenas um viés e me parece que você não esta ciente que ao contrario dos times de futebol, que em sua maioria possuem fins não lucrativos, os jogadores de futebol há muito tempo já praticam a obtenção do lucro, prova disto que os times estão quebrados e os jogadores então milionários. Fábio usou de sua posição histórica (talvez de forma inconsciente e com o apoio da imprensa) para manipular a torcida e se colocar como vítima, quando na verdade ele também é agente da falência do Cruzeiro. Se ele não estivesse objetivando o lucro, poderia ter aceitado o contrato que lhe foi oferecido ou até mesmo ter renunciado ao que a instituição lhe deve (o que concordo que nenhum doido faria isto). A visão de que só os clubes empresas visam lucro distorce a realidade, sendo hipocrisia falar que os jogadores, com assessoria de seus empresários, não visam também lucros milionários. Devido ao seu enorme ego, Fábio se posicionou como vítima e levou a maioria das pessoas a enxergar a história somente pelo lado dele. É preciso que a imprensa mostre a realidade do futebol e ajude os torcedores a enxergar que os jogadores buscam muito mais o lucro que os times, pois no final eles encerrarão suas carreiras com muito dinheiro no banco e os times cada vez mais endividados.

  5. Infelizmente o que nos irá restar da paixão do futebol será o nostálgico… vide o Mineirão como exemplo, ficou o cheiro, o sabor e o balançar da arquibancada na nossa nostalgia … agora é o essencial ou melhor a essência da emoção e da paixão que é o clube de futebol, engana-se o atleticano que isso é privilegio do Cruzeiro essa mudança, aos poucos o mesmo acontece no Atlético com os R’s, pois não existe um ser ainda que dê um grande capital sem pensar em um retorno e ai amor/paixão desaparecem… então o que nos resta são as lembranças do amos pelo futebol, onde mesmo que precisando do dinheiro o amor pela camisa, pelo clube ou pelo futebol ainda falavam mais alto… viveremos do nostálgico tempo de que o futebol era da torcida!!!

  6. Os ricos que estão capitalizando o futebol para ter retorno financeiro vão destruir o esporte. Que torcida será fiel a qualquer time onde só se pensa em tirar seu dinheiro? Que graça tem torcer por uma empresa? Para quem ama um clube não fará mais sentido se o futuro for assim.

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