Marx e o clube-cooperativa

O futebol possui um forte apelo popular. Nasceu do povo, independentemente das discussões acerca de sua origem: ingleses, indígenas ou extraterrestres que, já identificando a esfericidade do planeta terra, resolveram nos oferecer de presente uma réplica e, com ela, descobrimos uma forma de nos divertir.

Fato é que o esporte bretão não se configura como pão e circo. Os mais atentos perceberão seu lugar como legítimo palco da luta de classes. A origem de vários jogadores denuncia a condição material onde vivem, sustentando o sonho de superar essa condição para uma vida mais digna.

O que os donos do capital fazem, atualmente, com o evento futebolístico explicita elementos de um capitalismo excludente, que tenta afastar as massas populares dos estádios. O preço dos ingressos e a criação de uma indústria cultural que investe nos chamados clubes de sucesso, globalizando a idolatria em três ou quatro craques mundiais que vendem camisas, cuecas, chuteiras, carros, planos de telefonia, cosméticos e ações no mercado financeiro demonstra como o futebol se distancia, gradativamente, da massa organizada. Afinal, a “história de todas as sociedades têm sido a história da luta de classes”.

A condição de trabalhadores que buscam no esporte momentos de experiência coletiva, unidos em prol de um objetivo único, é a expressão da natureza da qual somos constituídos: seres que buscam, juntos, soluções para os problemas individuais. É assim desde nossa ancestralidade. Seria impossível chegar até o ano de 2021 sem essa característica que nos torna quem somos. Afinal, você acha que matar um mamute era tarefe de um único sujeito?

A sociedade de mercado sempre tentará capitalizar todas as coisas que compõem a vida. Não seria diferente com o futebol. Atualmente, o discurso do cube-empresa como salvação da lavoura é o retrato da visão neoliberal que prega a saída pela individualização dos lucros e coletivização das misérias, como se existisse apenas essa saída. Tentam levar seu credo religioso, atacando tudo que é público, coletivo e popular. Por isso, justificam que é preciso privatizar, capitalizar, construir um ambiente propício para que o dinheiro não seja barrado pelos valores éticos ou pelos compromissos políticos.

É preciso entender que aquilo que chamamos de história não é produzida por nenhum lobo de Wall Street, esse sonho infantojuvenil de um uma vida sem limitações e barreiras, onde a liberdade não é uma construção material, mas uma dádiva dada de presente para aqueles que foram agraciados pela meritocracia de uma boa herança.

Barrar esse ímpeto é compromisso moral. Invertamos esse jogo. Aos torcedores e torcedoras, o poder de decisão sobre a presidência do time; a construção coletiva dos planos de sócio torcedor, optando por valores acessíveis, empurrando o time com a força que só um grupo organizado é capaz de fazer. Abaixo à classe parasitária dos conselheiros, muitas vezes a principal responsável pela decadência do clube, pois conhecem muito pouco sobre o mundo trabalho, pois situam-se entre a herança e a hereditariedade, e não se identificam com as necessidades do povo-torcedor.

Talvez seja essa uma luta vã, mas  acredito muito mais em um clube-cooperativa que em clube-empresa. Pois, tanto o futebol como nós, homens e mulheres, compartilhamos da mesma condição: a natureza coletiva.

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