Que nossos filhos não sejam Startups

Poucos sabem, mas a filosofia já foi acusada de ser uma ocupação infantil. Sócrates chegou a ser recriminado por seus iguais pelas longas e despretensiosas conversas em praça pública. Enquanto seus concidadãos, atenienses ocupados, discutiam a respeito do porte de armas, do progresso econômico e das pretensões políticas dos nobres, ele se portava como uma criança que se dedica ao incômodo ofício dos “por quês”, na tentativa de entender (e ajudar a entender) o mundo à sua volta. Não é à toa que o apelidaram de “mosca”.

Talvez a infância seja mesmo um período encantador. Nada de romantismo pueril, pois não se trata de período fácil. Ao contrário de Rousseau, não acredito que o homem nasça bom e que a sociedade seja responsável pelo corrompimento de “vossa santidade”. Ao contrário, faço parte da turma de Hobbes e Freud, na crença de que esse animal bruto que vive em nós deve ser amansado, lapidado, pois, do contrário, viveria apenas para satisfazer seu próprio desejo, passando por cima de tudo e de todos. Por esse motivo inventamos a educação. Só ela seria capaz de criar uma sociedade que ajudaria na humanização do bicho homem. Planejar o futuro passa, necessariamente, pela reflexão a respeito da construção dos currículos escolares. Na verdade, eles são uma espécie de nota promissória na qual depositamos nosso pacto civilizatório.

Assim, desejar ter filhos e dedicar-se à educação deles, tanto escolar quanto não-escolar, é um ato político, não podendo ser reduzido ao mero investimento econômico. Por mais que o Fórum Econômico Mundial queira meter o bedelho onde não é chamado (e não é mesmo!), tentando ditar parâmetros para os processos educativos, ranqueando supostas competências para a educação das crianças, devemos protegê-las dessa voracidade da sociedade do desempenho. É preciso garantir que elas brinquem, alimentem-se e reajam à nossa interdição, entendendo que a escola é um lugar de proteção.

Em um de seus belos ensaios, Montaigne nos avisa que cada criança não pode ser vista como um copo que se enche, mas como uma chama que se acende. Belíssima ideia que deveria se tornar uma profissão de fé para todos aqueles e aquelas que se dedicam a acompanhar o desenvolvimento infantil, seja no exercício da paternidade/maternidade ou da pedagogia.

Não podemos coadunar com a esquizofrenia social que tenta treinar crianças para que elas sejam resilientes, tenham motivação interna, adquiram alto desempenho escolar e adorem meditação kids. Esse papo de treinamento infantil nada mais é que uma forma de invasão da subjetividade da criança mediante a perversidade disciplinar do mundo adulto. Criança não desempenha, criança desenvolve!

Lutemos contra a esterilização higiênica que não permite que a vitamina S – sujeira– cumpra seu papel no desenvolvimento dos anticorpos, tanto os biológicos quanto os simbólicos. Apontemos o dedo na cara da louca exigência da segunda língua para crianças que nem perderam o dente de leite ainda, mas que já estão enfronhados em cobranças acadêmicas justificadas pelo mundo do trabalho, com 40 aulas por semana, 10 atividades extracurriculares e 365 habilidades a serem desenvolvidas durante o ano.

É importante lembrar que os mesmos  caras do Fórum Econômico Mundial, bem como seus comparsas, os magnatas da indústria tecnológica do vale do silício, não oferecem tablets e smartphones aos seus filhos pequenos, mas uma educação fundamentalmente livresca, lúdica, distante do ensino online, em contato com a natureza, construída por adultos que não se impressionam com salas makers, mas que sabem contar histórias, garantindo que a  criatividade da aquarela infantil não se reduza ao azul das telas, que tanto prejudicam a visão, a mente e os corpos.

É preciso que cada criança sinta que estamos aqui para garantir que elas apenas brinquem, que tenham o sagrado direito à sujeira, que possam aumentar seu vocabulário ouvindo narrativas, que aprendam a lidar com os sentimentos gerados pelas histórias de heróis ou bruxas, entendendo que o pavor, a coragem ou a tristeza fazem parte da vida, mas que tenham a certeza de nossas mãos desocupadas, longe dos telefones, para ampará-las e protegê-las de um mundo que tenta colonizá-las, maquiando a educação  em nome da adultização precoce, jogando no time do trabalho e do consumo. Que o único treinamento permitido seja subir em árvore, mesmo com o medo de se machucar, afinal faz parte da existência subir para ver mais longe, mas também cair, sentido a dor de ter tentado e não ter conseguido.

Talvez a filosofia seja mesmo coisa de criança, envolta na brincadeira de pensar mundos e contar histórias, valorizando o ócio criativo que só as crianças sabem aproveitar de forma autêntica, sem se preocupar se lá na frente alguém vai querer comprar sua força de trabalho, afinal, ter filhos e educar crianças é muito diferente do que lançar um startup.

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