O FUTEBOL É ANALÓGICO

Fala-se muito em uma era digital. Muitas vezes não nos detemos às palavras, e por isso perdemos o significado das coisas. Desde Platão, sabemos que pensar os conceitos é uma forma de mergulhar na essência do mundo e, como bons mergulhadores, às vezes encontramos tesouros, outras não.

Digital nos remete ao dígito, número expresso em algarismo. Digítu, em latim, significa dedo, o que também poderia nos ajudar a compreender nosso tempo. Vivemos em uma época de dedos e de números, nada mais que isso. Ou de números produzidos por dedos, a ordem dos fatores não alterará o que nos tornamos: produtos.

Os algoritmos vão nos guiando, digitalmente, no consumo de um marketing que se sustenta à custa de uma realidade paralela. Ao consumir algo que –  supostamente –  não pagamos, acabamos descobrindo que o produto somos nós. Como diria Caetano: alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

Por essas e outras construímos um grande equívoco em considerar a “era digital” como o suprassumo da história. Primeiro, por ser uma avaliação positivista e anacrônica, tendo em vista a dificuldade na comparação de momentos históricos com necessidades diferentes, ou, como dizia Batata, velho amigo de bar: a tecnologia veio para resolver todos os problemas que você não teria se ela não existisse. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, a lógica digital é burra porque é linear. Portanto, nada mais antiquado que a binaridade de pensamento.

Uma lógica linear desconsidera a curvatura das coisas, pois trabalha em uma perspectiva de exatidão. Uma construção em linha reta que, independentemente das possibilidades, vai caminhando sempre entre uma perspectiva binária da vida. Ou isso, ou aquilo. Não existe a possibilidade de uma coisa puxar a outra, formando uma história.  Alguém que vê um pássaro, que se lembra do avô, que ouve a música que ele mais gostava , que chora e que termina o dia em uma cerveja gelada. A era digital nunca será capaz de construir isso. É por isso que o futuro é analógico, pois o ser humano é assim, um ser cheio de lembranças e histórias que não segue a linearidade dos bytes.

Gosto de ouvir a respeito das estatísticas futebolísticas, dos avanços em relação à medição do desempenho dos atletas e toda essa baboseira tecnológica. Fico pensando na sacanagem de uma escolha humana, que é capaz de jogar tudo  por água abaixo. É isso mesmo… Não importa se os números apontam isso ou aquilo, um pênalti batido para fora e todas as estatísticas vão para o diabo que  carregue! Da mesma forma, um ponta direita inspirado (isso mesmo, ainda acredito em pontas!) é capaz de matar a linearidade das previsões que se fundamentam na idolatria da sociedade digital. Nem o VAR é capaz de decidir uma partida, muito antes pelo contrário, basta uma mala circulando por aí… Esse é o humano! Incerto, errante, cheio de histórias e avesso às linearidades.

Hoje, senti o cheiro de couro novo de um sapato que acabei de comprar. Logo, me lembrei do Zé Canarinho, técnico que nos mandava passar “sebo de boi” nas chuteiras novas para que elas ficassem mais macias e não machucassem os pés. Daí, meu pensamento tomou forma própria e me levou para a chuva, o barro e a bola correndo em uma manhã domingo… Após o jogo, íamos felizes para casa, tomar um banho e almoçar, esperando à tarde quando Jorginho, meu padrinho, ligava o caminhão 608 e colocava todos no baú, com destino ao Mineirão, palco de alegrias (mas também tristezas) dominicais. Ao mesmo tempo vi, em minha frente, o verde da grama, o som da charanga, as bandeiras tremulando e o som da torcida. Um cheiro puxou um sentimento, que lembrou uma história, que refez um caminho, que me lembrou que hoje é domingo e que o ser humano é um ser analógico.

Tem dúvida que o futuro será mais inteligente assim? Faça o teste, coloque o cheiro de couro em frente ao seu smartphone e veja o que ele é capaz de te contar.

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