Toda esperança é uma fraqueza

Era fato. Sempre que minha mãe dizia para ter esperança sentia o sinal de que aquilo que era ruim podia piorar. É por isso que causa arrepio quando percebo alguém usando esse discurso para tentar consolar alguém. Como diria o inigualável Craque Daniel: – a esperança é o sentimento mais nocivo ao ser humano. Ela mantém vivo o sofrimento por algo que você nunca vai conseguir.

Uma questão de lógica. A esperança que brota no coração do sujeito, ao esperar que o ônibus não passe cheio, reside no fato de que, normalmente, ele passa lotado. A esperança é o último refúgio da criatura oprimida. Já tentaram me convencer… Não adianta. Afirmo: só precisa da bendita esperança aquele que está com o pé na lama. Simples assim: tem Criança Esperança na Suécia? Não! E por quê? Porque, para os pequenos suecos, ela é desnecessária. Lá já tem igualdade social, políticas públicas, ou seja, a realidade já é boa o bastante.

Já viu torcedor no Bayern necessitar de esperança? Já imaginou os fanáticos da Baviera gritando: – Eu acredito! Eu acredito! Essa seria uma cena mais deslocada que terraplanista esperando para ver eclipse. Por isso que a perspectiva esperançosa tenta dar sentido futuro ao sofrimento presente.

No entanto, podemos nos perguntar, como podemos viver sem esperança? Pergunta típica de telespectador da novela das oito. O filósofo responderá: colocando a teimosa no lugar. Prefiro gente teimosa à esperançosa. Não só porque a teima traz consigo algo de infantil, anárquico e forte, mas porque a esperança, conforme já descrita acima, não é uma coisa que se tem, mas um sentimento que se baseia em algo que não se tem.

Toda esperança é ausência, falta, por isso trabalha no vácuo, contabilizando coisas que não existem. Ela nos contenta com a imaginação de como poderia ser se não fosse como é. Passo a passo ela nos conduz ao precipício de uma vida que nunca é vivida de verdade. Não passa de uma tentativa, ressentida, de negar a realidade, diria Nietsche. Uma criação imaginária elaborada por pessoas frágeis, que não suportam a vida como ela é. Por isso, essa invenção chamada esperança é responsável – juntamente com a frase “eu topo o desafio” – pelas maiores merdas da humanidade.

Enquanto a esperança é uma espécie de fome, a teimosia é apetite. A diferença entre as duas sensações é clara: a primeira é uma ausência, a segunda é uma vontade. É aí que fundamento a filosofia da teimosia. Não basta ter fome de existir, é preciso ter apetite pela vida!

Aqueles que caminham direcionados pela vontade são pessoas abertas ao choque da realidade, capazes de se fortalecerem no desequilíbrio dos encontros, atropelando qualquer ressentimento daqueles que esperam outros mundos possíveis.

Assim, a teimosia é a melhor arma contra o sofrimento. Pois ela é pura vontade que convida o real para dançar. Enquanto a esperança é estéril, a vontade é fertilidade pura, só ela é capaz de criar coisas. Dê uma olhada à sua volta. Tudo que te rodeia foi materializado pela vontade de alguém.

Não nascemos do amor, mas de uma vontade que uniu dois corpos ao choque e, no duelo caótico da troca de apetites, expandiram seu querer e criaram outro ser. A semente que estoura, o carcará que sobrevoa a caça, o choro do bebê que reclama seu conforto, a dividida capaz de definir o jogo, tudo isso é a teimosia, fazendo o mundo caminhar. É por isso que tentam discipliná-la logo na primeira infância, pois só ela é capaz de criar homens e mulheres que não se culpam pela liberdade que só a vontade é capaz de promover.

A esperança oprime, a vontade liberta!

Sejamos menos esperançosos e mais teimosos, talvez assim o mundo nos respeite e o destino nos trate com a dignidade que merecemos.

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