Como os filósofos sobreviveram aos tiranos?

Engana-se quem pensa que o exercício filosófico se resume à pólis. Como se o fato de a filosofia ser uma espécie de carteirinha que inclui o sujeito em todos os debates políticos existentes. O engajamento não é a tarefa essencial da filosofia. Desde Platão, a política é uma das áreas de interesse dos pensadores, significando uma importante arena de embate para o discurso acadêmico, mas não o único campo sob o qual se debruça essa forma milenar de conhecimento.

Um dos traços mais fundamentais do pensamento filosófico, esquecido nos dias de hoje, sobretudo quando ela se encerra nos muros das universidades se tornando apenas um discurso teórico, é que a filosofia nasceu como uma espécie de “medicina da alma”, uma forma de pensar que estaria diretamente ligada à forma de viver, de ser e de agir daqueles que a procuravam para tentar ter uma vida melhor. Como disse uma vez André-Comte Sponville, pensador contemporâneo, “a Filosofia nada mais é do que uma forma de pensar a vida e viver o pensamento”. De todas as definições a respeito dessa área do saber, penso que essa é a que mais me apraz. Como um tratamento, ela propõe ao ser humano um processo de cura para os males do espírito. Nesse sentido, filosofar é buscar saúde, mesmo estando em um mundo doentio.

Grandes pensadores enfrentaram sujeitos com o perfil tirânico. Desde Sócrates, morto injustamente pela elite ateniense na ágora, os filósofos não entraram para a história como sujeitos que empunharam bandeiras ou foram para a guerra, mas pelo fato de criarem caminhos possíveis, como escolhas de pensamento, que ressaltaram a sabedoria em meio à ignorância. A coruja, símbolo do saber, enxerga mais na escuridão da noite.

Uma das figuras mais proeminentes dessa forma de viver é Sêneca, filósofo estoico do Séc. IV. Ele enfrentou, usando a arma da sabedoria, dois tiranos: Calígula e Nero. Vale lembrar que os dois déspotas tinham mania de perseguição e acreditavam que o Senado conspirava contra eles, traço característico de todo autocrata.  E pasmem! Tentou, sem sucesso, educar os dois. Mas aprendeu que diante da insensatez política é preciso ter a firmeza do sábio. E é por isso que ele nos ensina, em uma de suas cartas,  que o sábio, embora levando uma vida retirada, nem por isso passa a situar-se à margem do Estado; o mais que sucede é que ele, deixando um lugarejo estreito, acede a espaços mais vastos e mais largos […]. Sim, aconselho-te o ócio – um ócio em que a tua ação será mais válida e mais digna do que o mundo em que vivas.

Alguns lerão a proposta estoica como escapismo. Nada disso. Vale lembrar que Sêneca sobreviveu a dois tiranos da pior espécie, mas seu enfrentamento não se dava no espaço público, lugar encharcado pela vaidade e pela busca pelo poder, mas pelo espaço interno da alma, residência da virtude. O que ele propõe é uma forma de educação de si, único antídoto realmente eficaz contra os arroubos autoritários. Não qualquer educação, apenas aquela centrada no desenvolvimento moral, na capacidade crítica e criativa de viver com dignidade a existência humana. Afinal, sem o ato de pensar, o que nos distinguiria das samambaias? A não ser o fato de que elas podem ter uma vida bem mais completa que a nossa, bastando-lhes somente  um pouco de sol e água para sobreviverem bem. Nós, ao contrário, somos permeados de desejos, ausências, afetos e pensamentos que, se não forem bem direcionados, nos levarão à ruína.

Nas palavras do próprio Sêneca, “é um erro confiar a espada a um tirano” . Mas, quando o negócio já está feito, o importante é criar, em nós, barreiras de sabedoria que nos protejam da ignorância latente. O grande conselho dado pelo filósofo talvez esteja em seu tratado Sobre a Ira, diálogo construído após anos de convivência com Nero, a quem o filósofo presenciava constantes ataques de raiva. Em várias linhas, o pensador descreve essa emoção como aquela que seria a mais prejudicial ao ser humano, pois lhe tira a liberdade, roubando-lhe a capacidade de responder, racionalmente, por si mesmo.

Todo irado é aquele que se entrega à ignorância, agindo como um animal que rumina seu ódio e, com força de touro,  se enraivece contra qualquer um que ocupe seu pasto. É por isso que a raiva é “indiferente a si, desde que seja nociva ao outro, ela se arroja a seus próprios dardos e é ávida por uma vingança que há de arrastar consigo o vingador” . Todo irado é “enfurecido por uma ânsia desumana de dor, combate, sangues e suplícios”.

Sêneca percebe que todo  tirano faz do discurso político uma forma de guerra. Por isso, utiliza termos bélicos em seu parco vocabulário.  A calma, filha da sabedoria, não fez morada nesse ser que habita a espécie humana por acaso, pois mais se parece com uma fera selvagem que, ávida por sangue, só é movido pelo sentimento de tortura e destruição.

Quem sente raiva perde o domínio de si. E esse é o segredo do tirano: fazer com que cada sujeito perca o comando sobre si mesmo. Condicionado aos desmandos dos sentimentos mais primitivos, o sujeito que se entrega à ira não escuta ninguém, pois,  tal qual um cachorro treinado, babando para atacar, só é capaz de ouvir a voz impositiva de seu dono.

Alguns até dirão, conforme nos mostram os escritos de Sêneca, de que é possível encontrar uma medida “saudável” na ira. Que seria bom senti-la, pois ela pode ser uma espécie de combustível para os tímidos. Ledo engano. A ira é uma daquelas emoções que devem ser bloqueadas, pois quando a sentimos, perdemos o controle e passamos a ser controlados. Mais uma vez, a arma do tirano é incentivar a ira entre os irmãos na cidade.

É por isso que diante do discurso árido da vida pública, temos a virtude pessoal como elemento transformador da alma; contra a insanidade do ressentimento, podemos optar pela lucidez de uma vida em busca da felicidade; contra a ira do tirano,  o antídoto da sabedoria filosófica.

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