Cosme, o Alfaiate

Seu Cosme era um personagem do bairro. Homem de poucas palavras e muitos sorrisos. Em seu dia, Cosme e Damião, fazia questão de distribuir balas. A alegria desse momento irradiava pelas ruas, descia pela goela dos meninos com o doce sabor das guloseimas. Nada de “gostosuras ou travessuras”, coisa de menino de apartamento, que tem que se fantasiar de malvadinho. O negócio era doce “de grila”, pau comendo entre a  galera, mesmo sabendo que a oferta era farta. A graça era se embolar no meio do povo, na poeira da rua, e sair com o bolso cheio, tal como uma medalha de campeão!

Os adultos, cumprindo seu papel, somente observavam. Suportavam o desenvolvimento infantil sem maiores angústias. Sabiam que aquele era um movimento natural da convivência humana e possíveis brigas ou discussões seriam resolvidas, até o próximo dia, pelos próprios infantes. Sem neura, tudo era festa. A vida no bairro seguia seu rumo com alegria, muita discussão, ofertas no alto-falante do açougue e futebol no campo de terra.

O maior orgulho de Seu Cosme era ter feito o uniforme para o time do Bairro. Camisa branca e escudo vermelho, calção nas mesmas cores. Tudo era costurado à mão, com o esmero de um ourives que trabalha sob o metal mais precioso. Quando o Remo entrava em campo lá estava ele, na arquibancada de cimento, praticamente  um Michelangelo contente com sua obra. Não tinha uniforme “B”. Era sempre aquele que, no final de cada jogo, os jogadores levavam para casa e tinham o compromisso de, na próxima partida, voltarem com a limpeza de uma farda em dia de festejo pátrio. Todo domingo era assim. Dia de confrontos homéricos, honrando a camisa feita pelo Seu Cosme, o alfaiate que, além de adoçar a vida das crianças,  costurava a existência dos amantes do futebol.

Seu Cosme partiu com a sobriedade de um Ulisses voltando à Ítaca. Deixou sua marca pessoal, eternizou-se em sua paixão pelas malhas, pelas crianças e pelo futebol. Hoje, ainda lembramos, entre uma cerveja e outra, dos dias em que fomos envoltos pelo manto sagrado que passou pelas mãos desse sacerdote popular.

Atualmente,  O Remo não joga com o mesmo uniforme. Cheio de patrocínios, da churrascaria ao conserto de celular, sua camisa é um retrato do capitalismo fordista, da sociedade de mercado, da narrativa pós-moderna que troca histórias por praticidade.

Fabricada em chapa industrial, a nova camisa carrega, agora, a frieza das máquinas que não compartilham a grandeza humana do sentimento. O sujeito de mercado, outdoor ambulante, especialista em sustentar patrocínios, é incapaz de compreender a beleza de um indivíduo que, com suas mãos de Gepeto, era capaz de dar vida, na escuridão da noite, às linhas e aos carreteis. Seu Cosme, em sua alfaiataria, traçava sorrisos, costurava lágrimas e, nesse movimento existencial, transformava sentimentos em camisas. E eram elas que, virando bandeiras nos varais da periferia, uniam homens e mulheres ao simples grito de Gol!

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