NÔMADE!

Toda determinação é chata. A ideia de destino, confortável à primeira vista, é empobrecedora da existência. Talvez seja por isso que a felicidade não esteja na partida ou na chegada, mas na travessia. Ela não está nem na margem de lá ou de cá, mas na terceira-margem, um lugar criado por quem decide se aventurar na construção de um mapa de afetos possíveis.

O poeta – mais que cientistas, filósofos e religiosos – está certo: a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida… E é a partir das convergências e divergências que vamos construindo um caminho. Afinal de contas, caminante, no hay camino se hace camino al andar. Sem destino prévio, toda atenção se volta para a caminhada, passo a passo, que constrói aquilo que chamamos de vida. Um édipo que não se importa com o enigma da esfinge, mas com a ferida no pé que, além de dar origem ao seu próprio nome, faz de si um sujeito que caminha no “errante” da estrada.

É por isso que o craque não é aquele que cumpre um projeto, que segue uma estratégia, que luta para que as ideias se materializem em campo, mas sujeito que caminha no titubear dos encontros e vai construindo seu jogo. Do contrário, o futebol seria um esporte chato, destinado a dois personagens igualmente enfadonhos: o peregrino ou o turista.

Todo peregrino é aquele que caminha por um motivo maior. Tão maior que é capaz de anular a si mesmo por uma causa, pela vã tentativa de encontrar uma enseada que o faça melhor, de um vento que o leve para lugares de nirvana. O turista, no mesmo registro, age como um sujeito que considera a própria caminhada como ato de consumo e espera, com  a mesma determinação do religioso, experiências fantásticas e perfeitas, apenas trocando a religião pelo capital.

Ao contrário disso tudo, a bola – da mesma forma que a vida –  só é conduzida com arte pelo Nômade, aquele sem destino que é todo potência criativa, que espera encontros para se fazer quem é. Em Mil Platôs, Deleuze e Guatarri afirmam que o nômade com sua máquina de guerra opõe-se ao déspota com sua máquina administrativa. É disso que se trata. De uma vida-bola conduzida pela criatividade do momento, construindo rotas de fuga diante de um mundo conduzido déspotas-administradores.

Por não desenvolverem a criatividade do Nômade, desejam inibi-lo, castrá-lo, dominá-lo e subjugá-lo, pois só assim conseguirão deter a criatividade dos caminhos possíveis, sob os quais a administração de desempenho não possui domínio. Sem regra eterna, sem deus, sem capital, ou qualquer teoria  que queira descobrir a forma de vencer, a multiplicidade dos encontros, a beleza inédita das encruzilhadas, o excesso de profusão faz do Nômade um sujeito que vive a vida  como uma história que dispensa roteiristas.

Então, não nos afastemos muito, pois é pelos encontros que nos modificamos e construímos a nós mesmos, na mesma medida que criamos jogadas que, até então, não existiam. Aqueles que esperam experiências administrativas irão se decepcionar, pois todos os caminhos são possíveis, basta termos à mão a disponibilidade do rio que, antes virar mar, anseia pelo encontro de nascentes que o fazem maior do que já é.

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