Pontos corridos ou histórias contadas?

Na mitologia grega, o caos é princípio de todas as coisas,  origem de onde tudo vem e para onde tudo vai. Por isso que ele se constitui em uma força criativa, matéria aberta à modelagem das pulsões que fazem a dança da vida. E o mais bonito é que a pista de baile não existe. Ela é plasmada à medida que os dançarinos criam seus passos. Toda tentativa de ordenação, sempre cosmológica, é exploratória e autoritária, apenas uma redução da diversidade musical ao universo da coreografia pobre, típica das dançarinas do Domingão.

Nietzsche, ao ressaltar a beleza da vida, usa sempre a dança como metáfora, pois “só quem tem o caos dentro de si é capaz de parir uma estrela que dança”, “só poderia crer num deus que soubesse dançar” ou “ter fé é dançar na beira do abismo”…   Quanta sabedoria! Só o caos é capaz de parir vida nova, pois todo peso é sério, carrancudo e grave,  atrapalhando a dança da existência que, por sua vez, é leve, divina. Sendo assim, a forma como cada um de nós se colocará diante da vida, sempre caótica e abismal, irá definir com vamos atravessá-la: chorando ou dançando?

Em todo jogo da Copa Libertadores sinto o texto nietzschiano pulsando em minhas veias. Como diria Zé Canário, um sábio amigo de infância: – libertas é assim… onde o filho chora e a mãe não vê!

E fica mais clara a distinção insossa em relação ao campeonato de pontos corridos, que para ser grande deve ser colocado em tom superlativo: Brasileirão. Vão me inquirir: – mas no mundo tudo fazem assim, por pontos, por ser a forma mais justa. Replico: – cuidado com a maioria! Em Atenas, Sócrates foi morto justamente pela maioria. Afinal, não é sobre justiça que estamos falando, mas sobre beleza. E, uma coisa nem outra, são decididas pelo critério da maior quantidade de votos.

Um campeonato de pontos corridos é um texto de Descartes. Longo, chato, linear, razoável, separando descaradamente razão e emoção. Segue a mesma burocracia das aulas de redação. A vida reflexiva se tornando escrava da técnica.

Um mata-mata, ao contrário, como o próprio nome já diz, é uma decisão vital, coisa de gente corajosa e forte, que adora dançar na beira do abismo. É a escrita despretensiosa, sem o crivo racional, distante dos pudores do superego, longe do cerceamento repressor da quantidade de linhas e margens. Por isso ele é um texto-vivo, pura criatividade efêmera. É assim que a Copa Libertadores é uma forja nietzschiana, um aforismo, uma martelada, uma dinamite prestes a explodir a qualquer momento.

Por isso as brigas, que geram histórias infinitas. Os gols que não existiram e que, bem ou mal anulados, entram para as narrativas como tragédias que são a própria essência do existir futebolístico. Os heróis, que retornam para casa tal qual Ulisses reencontrando Ítaca. Tragédia e comédia, dor e prazer, matar ou morrer, côncavo e convexo, contração e dilatação, movimentos próprios da ambiguidade existencial do qual somos parte.

Só a Libertadores é capaz de produzir santos como Joãozinho e Victor, Palhinha e Ronaldinho, ao mesmo tempo em que exalta pecadores como Véron e José Roberto Wright. E não importa se agora tem o Var, pois nenhuma técnica racionalista será capaz de silenciar a fábrica de narrativas que é o futebol, pois enquanto houver buteco, torresmo, emoção e cerveja, continuaremos dançando na corda bamba do abismo que é torcer.

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