Corpo a corpo!

Futebol é esporte de contato. Ainda bem. Cresci ouvindo: foi corpo a copo, segue o jogo! Hoje, sou capaz de perceber a beleza filosófica por meio desse grito que ecoa das arquibancadas e dos campos de terra, favorecendo o curso aleatório das coisas. Quantos termos nessa primeira frase: corpo, beleza, grito, curso, aleatoriedade, jogo… Essas e outras dimensões perpetuam a vida como matéria, desejo original, caos aberto à ação do tempo e das vontades.

A cultura digital, exímia produtora de imagens, tenta construir uma vida sem corpo. Aí reside o perigo e o problema filosófico. Imagem não sente, não grita, não chora, não reclama, não se alegra. A imagem pode ser o antônimo da felicidade, pois ela é sentida no corpo. Daí vem o cyberbullying , o shitstorm, o revenge , as fake News. São construções imagéticas que, ao serem compartilhadas, visualizadas, cedidas, perdem a relação direta com o sofrimento corporal das pessoas. Somos incapazes de perceber a dor no corpo do outro, pois estamos distantes, aí está a  perversidade nesse jogo . Não nos enganemos, isso é um projeto.

Abandoar as dimensões do corpo é se entregar à objetificação da sociedade de consumo. Resiliência virou palavra da moda. E não nos causa certo estranhamento, um conceito da Física, uma “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica”, ser relacionado às pessoas, gente, de corpo e alma? É o ápice do gozo capitalista: nos submeter a uma “deformação elástica”, um bando de gente que enxerga seus próprios corpos como um material moldável à exploração. Todo resiliente é um recipiente dos abjetos sociais,  convencido de que ele não passa de um objeto na roda do sistema. E não sou eu, é a Física que disse isso.

A metrópole, criadora de imagens, nos coloca na vitrine e nos enxergamos, emaranhados a outros produtos, na homogeneização de nosso tempo: não há separação entre sujeito e  imagem. É por isso que alguns casos de depressão e suicídio nos assustam tanto, sobretudo nos grandes centros urbanos. A imagem estava ótima! Mas o sujeito, não. Criamos pessoas que desconhecem essa separação. Pensam que a imagem é o próprio self.

Não é à toa que o sexo saiu de moda. A Geração Z é a que menos transa desde os anos 1920. Apesar de exímios criadores de aplicativos de relacionamento, o ato sexual, como encontro de corpos, não faz parte do ideário da moçada. Eles preferem se relacionar com imagens, buscando tão somente prazeres “perfeitos”. Hormônios, agora, controlados pelo gozo virtual do não-contato, do não-relacionamento, do não-corpo e, portanto, do não-sentimento. Não necessitam mais do outro, mas apenas da imagem dele. Um vazio infinito que destrói qualquer possibilidade de construção de sujeitos. Afinal, só nos vemos a partir do espelho. Não conheceríamos nem nosso próprio rosto se não fosse o outro, fora de nós.

É por isso que precisamos lutar pelo corpo a corpo, na constituição de cada sujeito como corporeidade,  pois só ele é capaz de  sentir, de amar, de ser feliz ou infeliz. Essa máquina complexa, agora, é o principal alvo da teocracia digital. E como religiosos, crente dos afetos, devemos dar continuidade ao grito das arquibancadas:  corpos do mundo, uni-vos!

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