Tio Zé, o empreendedor

Tio Zé sempre foi uma figura enigmática. Nunca pronunciamos seu nome verdadeiro, mas isso não importava. Seja qual for, não seria capaz de traduzir a força polissêmica de uma alcunha que virou conceito: “Tio Zé”.

Praticamente um Diógenes, morando em seu barril, pregava que a vida não era algo que possuíamos, com o direito de ir gastando-a por aí. Ao contrário disso, segundo ele, era a vida que nos possuía. Em sua visão, sujeito de “4º ano de roça”, conforme tinha orgulho de falar, éramos apenas um pedaço dela. Cada um de nós, nesse jogo da existência, teríamos um compromisso de honra com essa oferta que nos foi dada.

Por isso, como um Tuareg enfrentando o deserto, ele tinha o dom de ficar quieto e calmo, sempre em sua zona de conforto, sem gastar tempo e energia indo atrás de coisas que não o ajudassem a degustar a vida. Ele era como um enólogo, indo atrás das existências mais raras, cheirando o líquido que repousava atrás dos vidros embaçados, buscando sentir as tonalidades e combinações das pessoas, mas sem a afetação pernóstica dos admiradores de vinho. A propósito, esse era seu único defeito: ele não bebia. Mas tinha uma razão para isso. Para ele, não era ético se envolver afetivamente com o objeto de trabalho, para não correr o risco de se transformar, ele mesmo, em um objeto em seu trabalho. Tio zé era dono de boteco.

Seus afetos estavam na pesca, no carteado e no futebol. Ações que ele até permitia entrada em seu estabelecimento comercial de um cômodo, mas apenas como forma de boa conversa ou pescado frito na farinha de trigo. Os jogos do Campeonato Mineiro eram transmitidos em seu balcão. Daquele rádio valvulado saía uma voz metálica do narrador que tentava passar ao ouvinte toda a emoção da peleja. Aquele ruído, o som da torcida e as palavras utilizadas pelo locutor mantinham uma relação direta com meu coração, que seguia o ritmo imposto pela linguagem. O momento mágico do gol era permeado pelos sons das garrafas e das mesas agitadas que comemoravam ou xingavam. Não importando o time, sempre acabava em cerveja gelada, pinga com jurubeba e tira gosto.

Na verdade, Tio Zé foi o maior empreendedor que conheci. Seu boteco era uma startup de sucesso! Unia pessoas pela diversidade, não importando as orientações ideológicas, sexuais ou religiosas. Segundo ele, o elemento unificador que está na essência de uma cerveja gelada e um torresmo quente era capaz de ter levado paz à Guerra de Tróia. Por isso, seu serviço era construir um ambiente de paz e harmonia, servindo a “cevada mas gélida da região”, fruto de um profundo benchmarking ao redor do vilarejo.  Seu slogan era: uma cabeça quente se esfria em uma garrafa gelada.

Além do apoio à diversidade, ele incentivava o trabalho compartilhado e o engajamento do cliente, pois sempre oferecia uma pinga da boa para quem varresse a calçada antes da abertura de seu empreendimento comercial. Às vezes era difícil escolher o ajudante, pois a procura era muita. Por vezes, Tio Zé fazia uma escala semanal. A sustentabilidade também fazia parte do negócio. O mesmo pano que ele carregava no ombro, como a divisa de um oficial que voltou da guerra, era utilizado para espantar as moscas do balcão, enxugar os copos, arrumar a sinuca e secar as mesas.

A gamificação era parte indispensável do job. Havia uma cadeira reservada a todos aqueles que desejavam gastar as moedas do troco em um jogo que tentava relacionar bichos às sequencias numéricas. Uma aula de probabilidade capaz de dar inveja em prêmio Nobel! Situações-problema que eram apresentadas de forma variada e que ainda rendiam uma graninha para aqueles que conseguiam resolvê-las. Análises estatísticas, capitalização, posições filosóficas, interpretações de sonhos, relações históricas e reconhecimento da fauna brasileira, aquele jogo era, de fato, uma atividade interdisciplinar que movia habilidades cognitivas e socioemocionais.

É por isso que Tio Zé sempre será, desde minha memória infantil, a imagem de um mestre do empreendedorismo, pois mais do que construir robôs em sala de aula, ele talvez tenha nos ensinado o caminho para não ser um robô fora dela.

One thought to “Tio Zé, o empreendedor”

  1. Bela Reflexão caro Filósofo, apreciador do futebol e de boas leituras reflexivas sobre a tentativa de compreender o comportamento humano.
    Talvez o que realmente precisamos nos dias de hoje são mais “Tio Zé”! Célebre naquilo que falta em nossos líderes: a compreensão do ser humano na sua mais rústica definição. O homem capaz de valorizar a vida muito além da pessoa e mais ainda daquelas escolhas feitas por ela. O homem que preza pelas relações como a melhor maneira de se conhecer o outro.

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