Intolerância ao òcio

De todas as intolerâncias de nosso século, uma está passando despercebida diante de nossos olhos: a intolerância ao ócio. Detectamos a rejeição à lactose, ao glúten, a intolerância religiosa,  política e até mesmo às pessoas. Mas, em uma ação muito suspeita, não falamos daquela que está nos afastando de uma vida saudável, que nos impede de nos especializarmos na suprema arte de não fazer nada.

Esquecemo-nos que a preguiça é um direito conquistado a duras penas e que, em meio a tantos apelos audiovisuais, ficar à toa tem sido uma das tarefas mais difíceis do homem contemporâneo.  Vencer o homo faber por meio do homo ocius é tarefa que exige disciplina, concentração e tempo disponível para si mesmo. Coisas raras no ethos urbanus.

Fomos (e somos!) doutrinados a considerar a ocupação do tempo como algo dignificante, nos esquecendo que somos atravessados pelas obrigações mesmo quando estamos longe delas. Entramos em uma época que até o descanso é programado, pois se transformou em  tempo de não-trabalho para que possamos, roboticamente, consumir. E depois tenhamos que trabalhar ainda mais para sustentar os gastos, quase sempre supérfluos, feitos no suposto tempo-livre.

Não trocamos apenas dinheiro por produtos. Trocamos nosso limitado tempo de vida pelo desejo, ilimitado, de saciar a sede de consumo. E o mais contraditório é que, geralmente, as coisas que compramos exigirão de nós mais tempo com elas, gastando, ainda mais, o tempo livre que tempos. Utilizamos o pouco prazo que temos para gastá-lo com coisas que roubarão  as raras horas que nos sobram. Alguns chamam isso de evolução. Na verdade, talvez estejamos tão doentes que iremos, de fato, “evoluir” a óbito.

Nessa roda do sistema, tal como um hamster bem treinado, corremos, corremos e corremos, ficando parados no mesmo lugar. A pergunta o que você faz em seu tempo livre? Mostra-se, em si mesma, contraditória, pois traz nas entrelinhas a necessidade de ocupar o tempo para que ele não seja mais livre. Talvez seja melhor responder: no tempo livre dedico-me à difícil tarefa de vagabundear.

Ficar à toa é um compromisso ético que deveria ser ensinado às crianças, que já estão sofrendo a agenda lotada desde muito pequenas, diante de uma sociedade que só aguarda mais sangue novo para aumentar a produção de bens de consumo. Como ainda não são produtoras, muitas delas  já sofrem na condição de consumidoras. Afinal, as pessoas ocupadas dizem que a roda tem que girar. E não importa se estamos falando de crianças, gente produtiva, geralmente, não tempo para pensar em ética.

Reservar um tempo dedicado ao nada é um exercício que nos ensina a aproveitar todos os sabores e desejos que produzimos a partir de nós mesmos. Uma liberdade criativa que nos impulsiona a descobri caminhos novos em nosso próprio coração, nos bastando apenas um corpo e a suprema vontade de vagabundear. Isso seria demais para os arquitetos da sociedade de consumo! Quase uma declaração de guerra!

Lembremo-nos que o ócio é uma escolha e não uma condição externa. É por isso que o desempregado não está em ócio, o sujeito privado de liberdade também não e o preocupado com as contas do mês, infelizmente,  passou longe. Muito menos o consumista que tenta tapar suas ausências com o fetiche das rolhas, geralmente chamadas de mercadorias, dispostas em ordem de preço nos Shopping Centers. Todas essas são condições externas que assaltam a liberdade do ocioso. Decidir-se por não fazer nada é ação de outra ordem. É um basta nos ruídos externos para concentrar-se na busca da sensação original, uterina, de não sermos instrumentos de nada nem de ninguém, mas um fim-em-si-mesmo.

É por isso que o ócio se torna um ato religioso de resistência, diante da infernal sociedade do desempenho e seus sacerdotes profanos que exigem o sacrífico de nossa liberdade. Diante deles, sigamos os ensinamentos de Jesus, que, como bom pastor, pregando a ociosidade, nos ensinou:

contemplai o crescimento dos lírios dos campos, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho.”

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