Futebol e Capitalismo

Atenção: essa é uma crítica ao futebol. Apesar de o capitalismo também ser merecedor de ressalvas e pontos de exclamação em caixa alta, mas não nos ateremos a essa discussão aqui. Sócrates, a mosca na sopa da comunidade ateniense, alertava: o dia em que a riqueza for mais valorizada que a virtude a sociedade caminhará para a ruína.

Podemos, sem erro, parafrasear: o dia em que as páginas esportivas forem iguais aos balanços do Valor Econômico, o futebol encontrará seu fim. Sei que os profetas da Sociedade de Desempenho irão se encher de raiva dentro de suas cobertas felpudas, rangendo os pés dentro de suas pantufas, mas o capitalismo é sim um desvirtuador do esporte bretão.

Triste pensar no dia em que o futebol será sepultado por uma montanha de notas promissórias. Aliás, não quero dizer que ele não será mais transmitido, que não haverá mais jogos e que as torcidas o deixarão de lado. Pior que isso, ele continuará existindo, só que através de aparelhos que o manterão artificialmente vivo, conduzindo-o à uma existência reduzida de, no máximo, dois ou três clubes. Como um romance de George Orwell, talvez teremos um Grande Time que ditará as regras esportivas a todos os outros, que dependerão dele para existir. Especulação, redes sociais, premiações, cifras milionárias já são um prontuário perfeito para esse doente.

É preciso entender que não é o capitalismo especulativo que dominou o futebol, mas, diferentemente, foi o esporte que se converteu obstinadamente ao capital. A exclusão da torcida, por meio de uma seleção elitizada, manifestada nos altos preços dos ingressos, já era um prenúncio. O futebol gourmet, como experiência de consumo dentro dos Estádios já apontava para a adoração de outros deuses que não eram Pelé, Maradona, Tostão, Reinaldo ou Garrincha. Se não fossem os mais obstinados estaríamos torcendo de terno e gravata, e nada nos diferenciaria de um dia de compra/venda, com suas habituais gesticulações, no templo da Bovespa.

Alguns vão dizer:  mas e o futebol europeu? Blá, blá blá… Que se dane o futebol europeu! Já levaram nossa riqueza material, agora os caras querem usurpar nossas idiossincrasias simbólicas?! Ademais, nada mais injusto que exigir um “padrão europeu” para quem não recebe em Euro. O poder de consumo, os direitos sociais e o estado de bem-estar da média brasileira não estão nos “padrões europeus”, mas o preço do futebol deverá ser?! Quanta ingenuidade…

Tenho pena de quem nunca entrou em uma Geral. Correndo de lá pra cá, com a cara pintada, bandeiras tremulando, impropérios de toda ordem, apontavam para um culto autêntico ao que o historiador Hobsbawn chamou de a religião leiga dos trabalhadores.  Pois o futebol é revestido dessa sacralidade profana que ritualiza os dias, as relações familiares, as vestimentas, os símbolos e a linguagem que não podem ser compradas por nenhum investidor. Aliás, já deveríamos ter percebido, no fim dos ingressos populares, esse projeto sórdido.

É por isso que dinheiro não compra jogo e mecenas não entra em campo. Lógico que vemos times com grandes estrelas, mitos orçamentários e a constatação da vantagem em ser uma empresa. Mas não compro essa ideia. Mais uma vez, vejo uma tentativa de convencer a árvore de que é melhor ser o cabo de um machado, pois assim ela será diferenciada, usada por gente competente.  Ganhando a independência da terra de origem, ela poderá sair do lugar e, ao ser convencida disso, irá ser um instrumento morto nas mãos de alguém que, com toda gana, passará a contribuir, diretamente, com a eliminação de seus pares.

O Futebol é terreno da diversidade, da multiplicidade de times e emaranhado de relações. Cada vez mais, times com ampla tradição popular irão cair no ostracismo. Ao contrário do que pensam os magnatas da bola e seus papagaios comprados, o futebol era bem mais equilibrado com os times seguindo sua própria tradição popular. Aliás, essa sempre foi uma das graças do jogo, quando sempre existe a possibilidade do mais fraco vencer o mais forte. Não é à toa que todo jogo é jogado e lambari é pescado.  Do Parma à Portuguesa, passando por Leipzig Lokomotiv, AméricaRJ e o Int­er de Limeira, o futebol é bem mais rico do que a pobreza pasteurizada das páginas financeiras.

Se não ficarmos atentos e fortes, caminharemos para uma homogeneização futebolística comandada por grupos de investidores que nunca chutaram uma bola, mas farão de tudo para que ela continue rolando sem vida, tocada por chuteiras caríssimas, por uniformes técnicos que abrigam corpos que não suam, com atletas que são craques em redes sociais e especialistas em gols de videogame. Quem sabe, para nosso desfrute e prazer, nos concedam até alguns jogos interativos em que teremos o direito, a partir do nosso plano de Streaming, de decidir o final da partida. Nada melhor que consumo, não acha?

2 thoughts to “Futebol e Capitalismo”

  1. Em outras palavras, mais especificamente, em Marx, o futebol, enfim, transforma-se de vez em mercadoria e eis o seu fetiche: ” A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção (MARX, [1890] 1994, p. 41-42).” Tendo o dinheiro como valor fundamental desta equação o seu interesse passa apenas no que pode gerar lucro e tudo que não serve para esse propósito não tem valor. O dinheiro como valor fundamental significa que ele está acima dos seres humanos, dos sentimentos, de outros valores, etc. Isso significa a coisificação e desumanização de um ser humano. Triste fim do futebol.
    Ótimo texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *