Qual o lugar do aluno na educação brasileira?

De todas as práticas sociais, talvez seja a educação aquela que, de forma autêntica, aponta para o exercício da alteridade. Ao contrário do que muitos pensam, a alteridade não pode ser vista simplesmente como um “colocar-se no lugar do outro”, pois seu pressuposto ético se apresenta, justamente, por um não ocupar o lugar que é do outro.

É dessa forma que conseguimos compreender a diversidade na sociedade em que vivemos. O outro é, simples e complexamente, um não-eu. É o totalmente diferente em relação a mim. É a mulher, enquanto sou homem; é a criança, enquanto sou adulto; é o estrangeiro, enquanto sou nativo; é o estudante, enquanto sou professor. É por isso que inverter a lógica da dominação pelo conhecimento pela relação com o saber não é apenas uma proposta teórico-metodológica, mas um compromisso ético.

Na verdade, o cerne de todas as questões pedagógicas é (ou ao menos deveria ser) acolher, de forma humanizada e educativa, o outro que espera pela palavra, pelo gesto, pelo olhar que o auxilie a viver melhor. Toda pedagogia que esteja distante disso é apenas um debate técnico acerca de vaidades científicas que tentam legitimar um discurso que exclui a alteridade do estudante.

Durante muito tempo, no campo educacional, o debate foi assustadoramente infértil. Talvez isso se deva ao fato de que ele se constituiu, basicamente, em uma conversa enfadonha entre iguais. Técnicos em pedagogia que debatiam técnicas pedagógicas. A imagem da cobra que devora seu próprio rabo.

Não havia, nesse momento, preocupação legítima com aquele que chega e pede nossos cuidados. Parece que esse cenário vem mudando nos últimos tempos, mas ainda é possível perceber o reflexo de gente encastelada, debatendo práticas pedagógicas que legitimam muitas coisas, menos o aluno que, de forma única e irrepetível, inaugura a presença do outro à nossa frente.

Sabemos que, no Brasil, o atraso educacional é um projeto de Estado. Mas, também podemos creditar na conta de pedagogos, professores, psicólogos e demais profissionais que atuam na educação a contribuição efetiva nesse projeto, na medida em que se esquecem de que todo nosso esforço técnico deve estar a serviço do personagem social mais importante nesse debate: o aluno. Todo o olhar deve se ocupar com o seu desenvolvimento, com sua humanização, com seus sonhos e seus projetos de vida. Um educador que não se debruça para ouvir o aluno é apenas um técnico da aprendizagem. É como um sujeito que sabe imprimir dicionários, mas desconhece o valor ético e estético das palavras.

Parece que vivemos em um contexto de legitimação do saber que coloca o estudante, sempre, como o último da fila. Pensamos na disponibilidade do professor, na organização do currículo, no complemento legal da carga horária, nas atualizações do mercado educacional, na obrigatoriedade das disciplinas, nas novidades em relação ao uso das tecnologias, na imagem da escola perante a sociedade e, por último, se der tempo, como o aluno se enquadra nisso tudo. Assim, para a construção do horário, das políticas educacionais e do projeto político pedagógico da escola escutamos vários atores sociais, mas deixamos de fora o mais importante deles: o educando.

Justamente aquele que deveria ocupar o centro da mesa é o sujeito social que se situa mais à margem do debate. A sorte é que contamos, talvez por nossa característica sociológica, com seres muito dóceis, que inclusive aceitam ser avaliados por um sistema que mede apenas para seleção e nunca para o desenvolvimento. Afinal, ao contrário de outros países, nossos vestibulares não servem para medir a aprendizagem, mas apenas para selecionar estudantes que caberão dentro dos prédios (sucateados) das universidades públicas. Como não há lugar para todos, devemos criar uma prova para selecionar alguns. Simples assim. Preocupação pedagógica? Não! É apenas uma adequação à infraestrutura aos prédios das universidades públicas. Avaliamos para separar, não para formar. O triste é que essas avaliações externas, para muitas instituições de ensino, acabam se transformando em “currículo escolar”. Com isso, várias escolas optam, em sua prática pedagógica, por esse saber reduzido.

Por isso que é chegada a hora de uma educação diferente! Apesar de toda a mudança em relação às novas diretrizes educacionais, como a BNCC – Base Nacional Comum Curricular, incentivando o desenvolvimento de habilidades e competências que forneçam sentido aos conteúdos lecionados, o Novo Ensino Médio, que garante uma maior flexibilidade no currículo, permitindo ao estudante a escolha de áreas de conhecimento que estejam de acordo com seu projeto de vida ou mesmo uma reconfiguração das avaliações externas, como o ENEM, e até a própria Pandemia que estabeleceu uma nova e importante relação entre a educação e mediação tecnológica, creio que a mudança não acontecerá por aí.

Há muito tempo perdi a crença no Estado como promotor de mudanças. Ao contrário disso. Os mecanismos burocráticos e legais, sobretudo em relação à educação, servem como palanque político para eventuais candidaturas ou interesses econômicos que subjazem às reformas educacionais. Basta olhar a extensa legislação educacional que possuímos e constatar que, em mais de 500 anos de histórias, avançamos muito pouco em relação à garantia do direito à aprendizagem.

Parece-me (e essa pode ser uma opinião bastante pessoal) que as transformações educacionais passam pelas mãos dos indivíduos que se comprometem com o outro. Sobretudo aquelas que experimentamos em nossa história pessoal e nos fazem voltar à escola, muitas vezes nos reconectando com aquilo que desejamos ressignificar, e acabam nos transformando em educadores. Esses sujeitos, que nos fizeram educadores, decidiram, no auge de sua sabedoria pedagógica, abaixar-se em direção à nossa fragilidade, que pedia, entre outras coisas, apenas um olhar de saber.

É por isso que todo o trabalho pedagógico só encontra sua razão de ser quando é colocado em função do outro que nos é confiado. Quando optamos por entrar para o mundo do trabalho, exercendo a função social de educadores, assimilamos que não aprendemos, apenas, para nós mesmos. Nós nos desenvolvemos, pessoal e profissionalmente, com o claro objetivo de atingir aqueles e aquelas que um dia necessitarão desse conhecimento. Toda perícia e instrução pedagógica construída para outro fim é apenas o exercício, por vezes arrogante e individualista, de justificar um saber vazio e conhecimento desencarnado. É como ser um cardiologista e saber tudo em relação às ultimas descobertas de sua área de especialização, mas nunca ter tocado o coração de ninguém.

A educação não pode ser apenas um debate entre iguais que desconsideram a vida do estudante. Educar é um compromisso ético de acolhida e humanização. Por isso, não pode ser reduzida aos planejamentos e diretrizes que esvaziem a participação ativa daquele que é o motivo pelo qual ela existe: o estudante.

Não são os títulos, os artigos publicados, as qualificações em periódicos ou mesmo a participação em seminários que nos fazem especialistas em educação. Tornamo-nos educadores quando passamos a ter a certeza de que uma aula é capaz de transformar uma vida.

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