A vida venceu a civilização!

A vida venceu a civilização. Essa é a mensagem do tempo. Parece estranho, no contexto em que vivemos, falar de uma vitória da vida. Mas é justamente aí que está a chave filosófica. Durante muito tempo construímos uma relação artificial entre o “conceito de vida” e a “vida em si mesma”. É como construir um castelo de abstrações em cima de uma área movediça que, em movimentos mínimos, abala todas as estruturas que antes acreditávamos seguras e imponentes.

A civilização não é a vida! A primeira é, apenas, uma construção teórica. A segunda, um processo orgânico de contradições, lutas, aparecer e desaparecer que constitui a realidade das coisas. O processo vital que entrega todos os seres ao devir e à aleatoriedade da roleta russa do tempo.

A civilização, dependente e escrava da vida, por muito tempo se organizou como se fosse senhora de todo o destino. Por isso, somos filhos e filhas de um engano. Construímos a crença de que poderíamos continuar vivendo, desconsiderando o todo orgânico, responsável pela energia caótica da criação. No ocidente racionalista, o caos sempre foi visto como destruição, mas a cultura dos trágicos, movimento forte, daqueles que amavam a vida como ela é, consideram-no como criação. Do caos, tudo se iniciou. A anarquia é mãe de tudo que existe. A tentativa conceitual de organização é apenas um desespero que acompanha a história humana.

A vida é jogo! Muitos estrategistas, no afã de justificarem a importância de si mesmos, tentam inverter a relação. O folguedo acontece sem estratégia, o oposto não. A competição que gerou a tática. São corpos que decidem. Eles são matéria veloz, optando pela beleza da jogada, enfrentando a verdade herética do planejamento. Um corte orgânico que inaugura a novidade na criação de um novo lance que, por ser individual e inexistente, até então, vai construindo o certame.

Em meio às estratégias, planejamentos e conceitos surgiu um ser minúsculo, microscópico e, justamente pelo corpo, nos avisou da matéria exposta que somos: juízos que não passam de balões cheios de ar que, ao pequeno espinho (de um vírus) se esfacelam em direção ao nada. Não são as ideias que nos salvam, mas o amor pela vida como ela é.

Amar a existência é não desviar o olhar das contradições, mas entregar-se à plenitude do instante, encontrando a beleza no necessário, sem esperar algo que extrapole a finitude ou a insignificância libertadora da qual fazemos parte.

Não sejamos seres reativos, pois é tempo de reconciliação. A civilização nos convida ao medo, já a vida nos avisa à possibilidade do amor.

Foi o processo civilizatório nos divorciou da potência vital e inaugurou o medo entre nós. As fantasias de superioridade e a ilusão de grandeza não foram capazes de dimensionar nosso ínfimo tamanho diante de toda a desordem universal. Com isso, perdemos a liberdade do amor ao presente, ao destino, em busca de um além que nunca chegará.

Toda meta é uma esperança que acorrenta nossos pés à subserviência do futuro inexistente.

E o que nos tornamos? Sujeitos medrosos que criaram fortalezas para esconder aquilo que temos de mais precioso: nossa finitude.

Deixamos o desejo pela vida para assumir a condição da reatividade amedrontadora. Talvez Nietzsche diria, no pé do ouvido: não é o vírus, mas é essa modernidade civilizada que nos torna doentes — essa paz indolente, esse compromisso covarde, toda essa moderna impureza virtuosa!

Pois, só quem tem o caos dentro de si pode parir uma estrela que dança.

One thought to “A vida venceu a civilização!”

  1. Gosto do reconhecimento e celebração da tragicidade da vida. Mas, talvez a civilização não seja exatamente a antítese ou negação da vida, mas uma forma extremamente poderosa (de modo algum positiva) de vida, ou ainda uma multiplicidade de formas possíveis de vida, multiplicidade de finitudes que não se encontraram jamais.
    Outra coisa: o desejo de “totalização”, independentemente do campo e do modo como ele se manifeste, se como absoluto, eternidade, imortalidade ou futuro, progresso, salvação, ou ainda como forma artística (porque é próprio da arte a relação com a amplitude do possível…), é o impulso (irrealizável) à totalização que nos distingue da precariedade e delimitação do destino animal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *