COVID-19: isso não é uma tragédia!

 

É preciso resgatar a mística das palavras. Todo processo de reflexão, sabedoria e cura passa por esse elemento fundamental de nossa cultura: o conceito. Eles são utilizados para definir, apontar, transformar e esclarecer, mas também podem ser usados para manipular, aprisionar, alienar e esconder. Desde Platão, a busca dialética pela definição das coisas se tornou uma espécie de depuração. Afinal, só pensamos por meio das palavras.

Percebe que a marca dos 300 mil mortos sempre vem acompanhada da palavra tragédia. Eis minha discordância profunda. Isso não define o que está acontecendo no Brasil, pois não vivemos uma tragédia. Explico. Todo elemento trágico, desde os gregos, traz o lirismo do destino do herói. É assim com Édipo que, tentando fugir de sua fatalidade,  afoito para abandonar a si mesmo, acaba por encontrá-la (ou encontrar-se) nas encruzilhadas da existência, quando se depara com a asfixiante esfinge que pergunta sobre quem ele é. Também acontece com Ulisses que, com Ítaca em seu pensamento, chega em Tróia e guerreia por 10 anos, enfrentando, depois, a viagem de retorno ao seu lugar natural. Aquiles, mesmo sendo o maior de todos, encontra alguém que descobre seu “calcanhar” e, assim, o entrega à sua ventura: a finitude dos mortais.

Assim, caro leitor e cara leitora, a tragédia reflete um destino. Algo que, escrito pelos deuses, não é apagado pelas mãos humanas. Daí a necessidade de cantar, poetizar e filosofar a respeito daquilo que verdadeiramente somos e não poderíamos ser diferentes. A partir daí podemos concluir: não vivemos uma situação trágica. Não há nada a compor nesse cenário, não há nada a oferecer como sacrifício e muito menos a poetizar. Apenas a absorção da vida que caminha em trilhos para a morte, acelerada por um maquinista carniceiro.

É por isso que vivemos um drama e não uma tragédia. Toda situação dramática, ao contrário da trágica, diz respeito, unicamente, às ações humanas. Ao compor um drama o ser humano escolhe, decide, constitui os personagens. Escolhemos, humanamente, quem vive e quem morre. A tragédia é o destino, finitude que o vírus vem nos lembrar, já o drama é escolha humana, decisões políticas que são tomadas e nos colocam diante daquilo que construímos.

Ao negar a vacina, a ciência, as medidas de restrição, o Governo criou uma situação dramática. Ao incentivar medicamentos que, comprovadamente, não contribuem para o combate à COVID-19, podendo até trazer complicações devido ao seu uso, eles instauraram o drama entre nós. Enquanto compatriotas morriam por asfixia, idiotas saiam às ruas com suas típicas camisas verdes e amarelas, compondo um teatro de horrores que poderia ter sido evitado. Quando faltam vacinas e o Presidente da República imita alguém perdendo o ar, em sua live, percebemos que o desastre tomou dimensões psicóticas.

Estamos, dramaticamente, em guerra. No entanto, somos, ironicamente, governados por militares. O problema é que os nossos – ao contrário daqueles do filme do Rambo, que a Indústria Cultural nos fez acreditar que resolveriam todos os problemas do mundo  – mostram sua incompetência diária, confundindo Amazonas com Amapá. Desde a vergonhosa Guerra do Paraguai já devíamos ter contratado gente mais especializada para pintar sarjeta. Capitaneados (literalmente!) pelo barqueiro do inferno, atravessamos um drama jamais visto em nossa história. Só não acredita quem já fez o pacto com ele e, dessa forma, assume a responsabilidade na escrita desse roteiro.

Sim. A morte é a tragédia, pois ela é o destino da vida. Terá sempre a última palavra. E por isso, nesse intervalo entre o nascer e o morrer, devemos construir quem somos, encontrando o belo naquilo que é o necessário. Como heróis que somos, é preciso enfrentar a aventura do retorno ao nada, sabendo que, durante esse trajeto, podemos ser lembrados por aquilo que construímos.

É por isso que sugiro a troca de conceito. Não por uma questão teórica, mas por uma necessidade ética de responsabilização daqueles que fizeram a escolha pela morte dramática. Dentro da tragédia do Coronavírus temos o drama da política brasileira. Alguns Governos entraram para a história devido a seus lemas: Governar é abrir estradas, O petróleo é nosso, 50 anos em 5, Era Sarney, Ame-o ou deixe-o, Esse é um país que vai frente!… Sugiro que, de agora em diante, nos livros de História, o Governo atual seja lembrado, sempre, pelo lema: 300 mil mortes em 1 ano. A pandemia do COVID-19 traz um bojo trágico, mas a Pandemia do Governo Bolsonaro é uma escolha que construiu um contexto dramático para o provo brasileiro. Então, nada melhor do que dar, corretamente, nome aos bois.

2 thoughts to “COVID-19: isso não é uma tragédia!”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *