A Vida Boa – da praça de Atenas ao Jardim de Epicuro

A tarefa primordial do pensamento sempre foi nos conduzir em direção à Vida Boa, desde os antigos. Ao contrário das samambaias, dos elefantes e dos  gafanhotos, o ser humano pode (e deve) escolher qual tipo de vida ele quer levar. Por isso pensamos, para isso escolhemos além das determinações orgânicas e instintivas que definem a vida dos outros animais. Nesse sentido, temos um distanciamento do pensamento mágico-religioso, pois, ninguém, a não ser nós mesmos, pode ser responsabilizado pela felicidade que compete a cada indivíduo.

Um gato já nasce com todas as reações instintivas possíveis e isso o possibilita a uma certa segurança biológica. Veja, não é uma escolha dele, mas da própria natureza que o antecede. Para ele, a vida já está pronta. Nunca ficará insatisfeito com sua condição. Pelo menos, eu nunca vi um gato indo ao analista, negando sua felinilidade com o desejo fantasioso de se tornar um cabrito. Ele se basta, pois não pode ser diferente do que é… Ao contrário de nós, que nos tornamos humanos justamente pelas escolhas diárias que nos afastam de uma vida reduzida a atender os chamados da natureza.

Nisso consiste a ética. Ela não é um conjunto de normas a serem seguidas, dispostas em uma tabela de Excel, separando o certo do errado.  Ela não diz respeito a ser de direita ou esquerda, liberal ou conservador, religioso ou ateu, altruísta ou individualista, mas sim na pergunta que diariamente soca nosso rosto: qual tipo de vida você quer levar, dentre as tantas possíveis para escolher?

As coisas mais belas são também as mais difíceis. É por isso que ser ético não é seguir normas, resoluções sociais que não nos fazem pensar. Inclusive, várias ações consideradas éticas foram aquelas que romperam padrões e apontaram para vidas possíveis, superando as normatizações, vide o rompimento com a escravidão. Pagar os boletos em dia, respeitar o sinal de trânsito, não cobiçar o corpo alheio, amar a sogra, tudo isso é bonitinho, mas não é necessariamente ético. O sujeito ético é aquele que escolhe pela Vida Boa e é aí que a filosofia nos pega: o que isso significa para você?

Por muito tempo fomos convencidos de que era preciso viver em Micro Apês, conectados a cabos e eletrônicos, à mercê do divertimento massificado promovido pela indústria cultural, divertindo-se aos finais de semana em ambientes programados, chamados Shoppings, engendrados a levar, em cinco minutos, o dinheiro que você conquista em trinta dias. O pior é que chegamos a chamar isso de qualidade de vida. Veja as crianças que, nesse momento raro da humanidade, precisam apenas de viver em casa, na companhia de seus pais e familiares, e adoecem psiquicamente, pois descobrem que a casa não é um ambiente propício para seu desenvolvimento emocional e cognitivo, mas ambiente da destruição lúdica, minimizador da subjetividade e inapropriado para a convivência harmônica entre seres da mesma espécie. É eticamente estranho pensar que crianças adoeceriam em casa.

Mas calma… Isso não é culpa de ninguém, pois a Sociedade do Desempenho conseguiu nos convencer de que Vida Boa é seguir uma cartilha de metas, regras e objetivos que servem para todos! E por isso mesmo ajudou a matar nossas idiossincrasias, nossas mancadas, nossos erros individuais, ou seja, aquilo que nos define como seres únicos e insubstituíveis. Com isso, aplacamos um pouco a angústia de sermos nós mesmos, indeterminados pela natureza, abertos às escolhas e decisões e passamos a fazer parte de um grande projeto que visa o aumento da performance humana, passando pelos laboratórios de genética,  academias de musculação e escolas de sucesso. Desempenho, eficácia e performance para quem? Essa resposta ainda não sabemos.

Fato é que completamos um ano de recolhimento social que nos colocou face a face em relação às escolhas éticas. Ele nos mostrou, cruelmente, que a pergunta qual a vida que queremos levar? chegou sem avisar e nos colocou diante de nossos projetos de vida.

No fundo, esse ano de isolamento social vem com o carimbo da pergunta ética mais fundamental, feita a cada indivíduo, sobretudo nas noites em que o travesseiro é o melhor conselheiro: e aí, sua vida é boa? Mas perceba que a boa reflexão ética tem sempre um quê de sacanagem, pois ela é complexa e não pergunta apenas se sua vida está boa, mas sim se ela é boa. Em outras palavras, a ética não uma coisa boa para te levar, ser puro, para o Reino dos Céus, mas para te lembrar diariamente que você não é nada mais que o resultado de suas escolhas.

Na maioria das vezes, tomamos nossas decisões sem nem mesmo pensar no tipo de vida que queremos levar. Depois nos arrependemos, ou colocamos a culpa no sistema, no partido, no emprego, nos pais etc… Por isso que, por pura opinião, considero que mais da metade dos nossos problemas políticos seriam resolvidos enfrentando os próprios demônios internos e não nos acalorados debates familiares.

Você já viu alguém  mudando de opinião em um debate político? Gentileza me informar esse feito histórico! Pois o que vi, até hoje, foram apenas pessoas despejando a raiva de uma vida mal vivida nos ouvidos daqueles que se dispuseram a ouvi-la. Essas discussões se parecem  mais com o exercício narcísico e perverso de vencer o outro apenas pelo prazer de vê-lo derrotado. A ideia é que a discussão nunca termine, pois, nesse exercício bélico, sempre tenho um opositor para justificar (a mim mesmo) que estou no caminho da pureza, da verdade e da razão. Então, o outro se torna, apenas,  um espelho para que eu possa me enxergar, vitorioso, em sua derrota. Sei que essa gente politizada irá reagir, mas há ética nesse ímpeto destrutivo? Ou apenas o exercício bélico da vitória?

Enfim, dificilmente vejo gente bem resolvida vociferando na rua ou em redes sociais. Quase sempre, nas entrelinhas dos discursos de ódio, vejo escrito: tenho uma demanda de amor mal resolvida e você é o culpado por não me dar o que eu quero! Ou simplesmente: preciso de você, como meu opositor, fazendo escada para dar uma voz social aos meus problemas particulares. É como no futebol. As discussões não fazem ninguém mudar de time, mas servem apenas para justificar a paixão que tenho pelo meu esquadrão, mesmo sabendo que preciso do rival para ser eu mesmo.

Talvez seja por isso que Epicuro trocou a praça pública ateniense pelo jardim da ética. Simbolicamente, ele dizia: a felicidade não está na turba, mas no recolhimento,  pois a pergunta pela vida boa não será resolvida no jogo pragmático da pólis, com seus vícios e podres poderes, mas na reconstrução subjetiva do que somos, do que temos e do que desejamos.

A quantidade de mortes que vemos hoje não mudará o curso da existência e as convicções políticas, pois a morte é, talvez, a única experiência filosófica pessoal e intransferível. A reflexão se dará, talvez, pela compreensão, sempre individual, de que a vida é curta, finita,  e  que cada um vive sua própria morte, sendo impossível sentir a do outro ou transferi-la a alguém. Por mais poético que seja, ninguém morre por ninguém, pois cada um experimenta seu próprio desaparecimento no grito silencioso de sua própria solidão.

É por isso que, na contradição do momento, com o aniquilamento ético do mal viver  rondando nossa porta, somos levados a pensar na vida que queremos levar. Isso não é escapismo, mas a constatação de que não queremos ser como samambaias que se satisfazem apenas com água e um pouco de claridade, sempre queremos mais e melhor. A questão não é apenas viver, mas viver bem. Essa é a grande questão humana.

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