NO TEMPO DA QUARESMA

Na minha infância, a quaresma era um tempo mágico. Era como se todos os habitantes de um reino misterioso resolvessem sair para conversar, confraternizar e passar medo na gente. Como grande parte das crianças, que vivem em Minas Gerais, venho de uma família que fazia questão do respeito ao tempo litúrgico, pois ele se mistura com o tempo da própria vida, com as chuvas, sol, plantios e colheitas.

Esse era, então, um tempo de muitas restrições. A pior delas: não jogar futebol. Lembro que íamos visitar meus primos, gente que mora na capital e não liga muito para as “coisas da religião”, dizia minha mãe. Sofria a tortura de ver todo mundo jogando bola, menos eu. Meus olhos ficavam pedindo, mas quando esses mesmos olhos encontravam com os dela, que lembravam a doçura de um torturador medieval, não precisava falar mais nada: quaresma não é tempo de futebol. Ponto final.

Como nunca desejamos sofrer sozinhos, eu pensava: mas essa proibição deveria ser para todos! Pois não entendia como as mães dos jogadores, dos comentaristas, dos radialistas e até a do juiz, aquela que mais sofria no futebol, deixavam seus filhos cometerem essa heresia. Mas, bastava uma pequena tentativa reflexiva, dialógica, para escutar: primeiro, você não é todo mundo; segundo, na quaresma muitas coisas acontecem com quem desrespeita as “coisas de Deus”.

Pronto. Bastava essa fala para recolher meu desejo profano. Ademais, eu sabia muito bem o que acontecia com aqueles que não respeitavam a mãe, principalmente no período da quaresma. Todos eles viraram Lobisomens e saiam por aí, assustando as crianças que nem eu. Isso quando não devoravam algumas. Nessa época, o medo de ir ao galinheiro era grande, pois sabia que ele estava à solta e gostava de fazer a feira. levando algumas aves dos vizinhos. Quantas histórias escutei de meu avô.  Narrativas fantásticas em que ele próprio, ou algum conhecido de sua época, tiveram que sair à noite à caça do dito cujo. Nunca conseguiram pegá-lo, mas sentiam o cheiro, o rastro, o barulho e outros indícios de que o peludo tinha passado por ali.

Outra figura que resolvia aparecer nesse tempo era o Bicho da Carneirana cidade o chamamos de Bicho-Papão, nome infantilizado e sem graça. Em minha cabeça ele era metade homem, metade bode, parte de mula sem cabeça, dentes de jacaré, cabelo de porco espinho e cheiro de gambá. Caso alguém, nesse tempo especial, não respeitasse a tradição, logicamente encontraria com algum por aí, pronto para levar sua presa para qualquer grotão e fazer a festa com as pobres criancinhas.

Apesar das procissões que envolviam a Semana Santa predizerem que esse tempo já estava no final, elas pertenciam ao nível máximo de atenção, pois ali era a última chance de os seres assustadores cumprirem sua missão. Nessa semana, os homens saíam de casa e iam fazer um ritual estranho, na porta do cemitério da cidade, chamado de “encomendar as almas”. No meu modo de entender, a gente encomendava era bolo, doce, biscoito e santinho para quem ia viajar à Aparecida. Mas… Encomendar alma? Isso não entrava em minha cabeça de jeito algum. No meio da madrugada escutávamos aqueles cantos sofridos e aquelas rezas sentidas. Se as “almas” gostavam disso? Ainda não sabemos.

Durante a procissão da Via Crucis só me lembro de olhar para a frente. Primeiro, porque não podíamos deixar a vela encostar nas pessoas, segundo porque se olhássemos para trás veríamos todas as almas que sofriam no purgatório, acompanhando aquele bando de gente que sofria no mundo real mesmo. Se elas, de fato, estavam lá, o caro leitor não saberá de minha boca, pois nunca me atrevi a olhar. No final, o canto da Verônica. Uma mistura de melodia macabra com palavras de tristeza. Era difícil descrever se o sentimento era de pena ou medo mesmo.

Hoje estou aqui, jogando bola em plena quaresma. E digo: não tem graça nenhuma, é a mesma coisa que faço todos os finais de semana. É apenas mais um tempo, igual aos outros que, por não serem ritualizados, nos colocam em um movimento vazio, sem sentido, que mais se parece com a a escada rolante de shopping. Estamos parados, indo do nada a lugar nenhum.

A cidade, ao matar a liturgia do tempo, assassinou o místico, o sagrado, o misterioso. De fato, Deus está morto… E o pior é que estamos com as mãos sujas desse assassinato. E alto lá para quem acha que isso é um discurso religioso. Nada disso. Quanto mais homogeneizado o tempo, mais fácil de aumentar a descrença na própria vida. É como se atravessássemos um grande deserto, mas sem momentos de oásis. Por isso que alguns, talvez os mais sensíveis, queiram encurtar o caminho.

O tempus urbanus matou o lobisomem, o bicho da carneira e as almas penadas. E hoje, estranhamente, sinto saudades desses monstros que me acompanhavam e tornavam todo dia uma aventura, envolvendo armadilhas, atenção, fugas e histórias que, à noite, saíam da boca mágica de minha avó. De forma especial, me entristece saber que essas narrativas também estão morrendo, diariamente, entre aqueles idosos que estão mais vulneráveis diante da Pandemia, pois eram eles, sem dúvidas, os nossos guardiões do tempo.

Um dos projetos da modernidade tardia, conforme nos alerta Walter Benjamim é, justamente, a transformação do tempo em um presente perpétuo, carente de recordação. Vivemos, nas grandes metrópoles, circunscritos à temporalidade vazia e ausente de sentido, pois nos cedemos aos ritmos da aceleração e da progressão contínua, em uma linearidade que vai deixando para trás justamente aqueles que o conseguiam transformar em narrativa pausada: os agricultores e os viajantes, dois sujeitos que, por serem os mais velhos nas tribos antigas, estavam cheios de história para contar e, com isso, demarcavam nossa relação com tempo.

É por isso que os anciões, exterminados hoje devido a um vírus que se alimenta da negligência, do negacionismo e da falta de empatia, fazem muita falta em nosso meio. Sobretudo para nos lembrar que a realidade humana pode ser bem mais amedrontadora que as fantasias da infância.

6 thoughts to “NO TEMPO DA QUARESMA”

  1. Bom dia Renato.

    Muito bom este texto, lembrou minha infância no interior. Realmente havia respeito e temor pela quaresma da nossa parte.

    Obrigado.

    Abraços.

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