Sampaoli: o dia em que a realidade matou a ideia

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Todo idealista é um sujeito ressentido. Essa afirmação não é minha, mas de Nietzsche. Inventar ideias e conceitos para tentar definir o real é apenas uma tentativa envergonhada de enquadrar, a partir de signos de linguagem, toda a multiplicidade da vida, como se ela coubesse dentro de um dicionário. As palavras (assim como as ideias) nunca darão conta da multiplicidade de eventos, sempre distintos, que formam isso que teimamos em chamar de realidade.

Dessa forma, assim como “um homem não se banha duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto o homem já são outros”, toda ideia é uma tentativa vã de igualar o não-igual, um escape de sentido. Toda definição torna-se obsoleta logo no primeiro segundo após a sua criação. Explico. Quando usamos o termo ser humano para identificar todos aqueles que compartilham da mesma espécie tentamos definir sujeitos que não são iguais entre si (nem em relação a si mesmos),  pois não existem dois sujeitos idênticos no mundo. É tipo assim, uma banana nunca é igual a outra, apesar de chamarmos ambas pelo mesmo nome. Portanto, banana (assim como ser humano) é apenas um conceito, nunca uma realidade.

Sampaoli, por não compreender isso, sempre será desprezado pelos deuses do futebol. Ele insiste em termos abstratos como projeto, hierarquia, ideia, conceito… São meras tentativas desesperadas de enquadrar o esporte bretão em ideias que não suportam a esfericidade da pelota. A contradição é o caminho, a sorte é a juíza e a inadequação é a tônica que faz desse jogo uma metáfora da vida. O futebol é sempre surpreendente.

Afinal, não foi o esquema tático que possibilitou ao Galo ser campeão da Libertadores em 2013. Sem o pé esquerdo do Victor, defendendo o pênalti do Tijuana no último minuto, ou o mágico escorregão de El Tanque, na final contra o Olímpia, qualquer ideia, conceito, projeto, tática, estratégia ou definição não dariam conta de levantar a taça. Doa a quem doer, o futebol é definido pelo imponderável, não pelos burocratas colonizados pela decadente escola europeia.

Basta perguntar ao Cuca se ele confiava mais no “conceito” ou na camisa da Santa que ele ostentava na beira do campo. E muitos exemplos poderiam ser dados aqui, pois não é à toa que a formação do time se chamava Galo Doido. Mais imponderável que isso não existe. Subversão total aos esquemas numéricos: 4 – 4-2; 4 – 2 – 1 – 2 – 1; 4-3-3, 5 – 5, -1-4-5... Linhas, números, quadrados, losangos só servem para aula de matemática.

Por isso que afirmo: a sorte define mais partidas do que os esquemas táticos. Duvida? Acompanhe as finais, as bolas na trave, os erros de chute dentro da área, a bola interceptada, o toque errado, a saída displicente, enfim… Os fatores decisivos nunca são conceitualmente aplicáveis, mas fazem parte daquilo que chamamos de místico, daquilo que faz o futebol continuar vivo no campo das coisas sagradas.

O (ainda) técnico do Atlético não passa de um ressentido, agindo como uma criança mimada que briga quando a realidade não sucumbe aos seus desejos. Foi assim com o Sevilha, com o Santos e, agora, com o Atlético Mineiro. Ele, que provocava uma gastrite por jogo em cada atleticano, justamente por não “repetir” nenhuma escalação, agora reclama da falta de estabilidade de técnicos “nesse país”. Sampaoli cobrando estabilidade é igual a neoliberal reclamando da operadora de celular, uma contradição em termos.

No mínimo ele deveria passar um tempinho na várzea brasileira, aprendendo a falar um português bem comunicativo, sofrendo pressão no alambrado e reconhecendo que o futebol se escreve à tinta de suor, e não com as ideias mirabolantes de um aspirante a professor pardal.

13 thoughts to “Sampaoli: o dia em que a realidade matou a ideia”

  1. O autor utiliza-se de floreios e rodeios linguísticos para tentar ocultar o óbvio, sua frustração em ver seu time perder o técnico badalado que a imprensa mineira pintou como aquele que tiraria o clube da longa fila de espera de 50 anos da conquista de um título de campeonato brasileiro. A imprensa esportiva mineira, em sua maioria formada por torcedores deste clube, eu me lembro bem, cantou loas ao treinador quando este foi sondado e posteriormente contratado. Agora, como na conhecida fábula da raposa e as uvas, tratam-no como um cão sarnento, um aberração, um erro de avaliação. Sampaoli é um grande técnico, sim, e faz exatamente como qualquer outro técnico faria, troca um clube desconhecido por outro que, muito embora não atravesse uma boa fase há algum tempo, tem maior visibilidade internacional. A frustração da torcida redatora não pode esconder este fato.

  2. Entendo a crítica em relação ao Sampaoli e concordo no que toca à falta de capacidade dele de assumir falhas e e sua péssima capacidade de relação. Mas generalizar que os conceitos táticos não são fatores imensamente relevantes e um generalização contraditória ao seu próprio discurso. Pois, as condições de jogo são sempre distintas, e sim, conjecturas táticas invertem previsíveis vitórias onde há grandes diferenças na qualidade técnicas dos plantéis. E nessas condições surgem vitórias imponderáveis tais como Inter, Corinthians e SP.
    Ou seja, o imponderável ocorre para dar o devido brilho ao jogo onde tática e aplicação conseguem superar qualidades individuais ou mesmo equiparadas.
    Em tempo, onde bebeu Sampaoli bebeu Guardiola. Sampaoli, Guardiola e Bielsa ainda jogam em alto nível e com mercado. Se Sampaoli não deslancha por falta de auto crítica, ok. Mas dizer que o que ele propõe são conceitos aquém da praticidade mostra pouco conhecimento em esquema tático de futebol.
    PS; O time de Cuca tinha um esquema tático muito claro. A proposta de ataque variava para dificultar a marcação. Atrás da linha de volantes o esquema era rigidamente o mesmo sempre.

  3. Amigos atleticanos este treinador fez o inimaginável. Fazer o torcedor se conformar e até deixar o manto da massa na gaveta, na hora do jogo. Tirou o nosso tes:ao. Não só ele, sejamos justos. Time de Hioran, Vargas, Zaracho, etc não entusiasma ninguém. Cheguei a ver irritação nas entrevistas de Arana, quase um desabafo. Não se faz uma corrente sólida com elos fracos. O campeonato mais fácil de ser ganho. Agora é esperar o próximo. Abraço

  4. Muito bom,você é o mesmo que escreveu a diversidade da escalação do Sampaoli e o quanto isso era interessante.Como é a vida hein? Hoje é uma coisa mas amanhã pode ser outra totalmente diferente. Eu também estava de acordo com as ideias dele,no entanto não estou suportando mais ver jogo do Galo,futebol burocrático e chato de se ver. Abraço.

    1. A sorte só aparece para quem desenvolve idéias, conceitos, esquemas táticos, senão colocamos um chimpanzé no banco e fica tudo bem.
      Victor defendeu o pênalti porque o time jogou várias partidas taticamente bem até aquele momento.
      Cuca usou a camisa da santa na última final contra o Palmeiras e perdeu.
      A sorte pode interferir eventualmente em torneios mata-mata, como seu exemplo, Brasileirão requer competência, consistência, qualidade.
      Quanto ao Sampaoli, se repete o imediatismo brasileiro. Projetos levam tempo, vejam Klopp no Liverpool, para citar um exemplo, de vários. Sampaoli erra como todos, mas a troca de treinador leva outra vez ao início. Contar só com a sorte é apostar no imponderável, é uma boa desculpa para quem não se prepara, está impregnado na nossa cultura. Basta ver o insucesso da grande maioria dos nossos jogadores que naufragam na Europa esquecendo a preparação, a tática e apostando na sorte.
      Eu prefiro a ação à passividade.
      Atitude, isto muda o jogo.

    1. O imponderável sempre será parte importante do futebol, não há como negar. Aliás, por isso o futebol é diferente dos outros esportes, onde a pragmatica vitória do favorito quase sempre se confirma. Entretanto, os esquemas táticos e as ideias que se colocam em uma partida de futebol são cada vez mais importantes, tendendo até a superar o poder de decisão dos grandes craques, vez que a coesão e a eficiência coletiva está sobrepujando a individualidade. É óbvio que, como estamos a falar de futebol, a organização coletiva, a tática bem executada e as ideias de jogo conferem à equipe grandes probabilidades de vitória, mas sempre serão probabilidades, nunca certeza. Concordo que o esquema tático e as ideias de jogo não fizeram o Victor defender o pênalti contra o Tijuana, ou o Ferreira escorregar na final, mas sem eles provavelmente o Galo não estaria disputando aquelas partidas.

  5. Sábias inferencias aleatórias que espelham o non sense das ideias mirabolantes e dos conceitos inovadores sobre o imponderável esporte que tanto nos aguça a paixão. Adorei seu texto sobre o marrento, birrento, ensebado e “nojento” Sampaoli. Que os deuses do futebol nos livrem dele!!! Um santista sonhador!!!

  6. Muito bom Renato. Não somente no futebol, mas em qualquer domínio que lida com coisas que se movimentam muito e de forma aleatória a narrativa vira a serva do desconhecido; e quanto mais empolada mais enganadora. Conceitos usados à exaustão como ideia, planejamento, medições e trabalho parecem criar um bloqueio em nossa capacidade crítica, pois antecipadamente nos sugerem algo moderno, uma espécie de fórmula perfeita. Oportuno dizer que os esforços ajudam, sim, no caminhar, mas muito, muito menos que imaginamos. O imponderável é abundante e impossível de se empacotar.

  7. Perfeitas a suas palavras e mais do que perfeitas as suas conclusões…infelizmente o mundo está sendo povoado por meninos mimados que querem e insistem em inventar o seu estado de direito particular!!!!( vide também a politica)

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