ENTRE GREGOS E CHINESES

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Meu filho é uma daquelas crianças que assistem a todos os jogos de futebol. Da série A do Campeonato Brasileiro à série D do Campeonato Inglês, passando pelo Corujão e Copa Itatiaia. Quando não é possível assistir às partidas, lá está ele, buscando no radinho algum programa sobre futebol. Meu Deus, como surgiu todo esse interesse? Pergunto-me diariamente.

Mas não é apenas a audiência da partida que conta. Ele sempre exige a escolha de um dos times para torcer. Não importa as cores envolvidas na peleja, é praticamente uma obrigação moral decidir por um lado. Já tentei uma reflexão a respeito da estética do jogo, da importância de analisar a partida e de acompanhar o desenrolar das equipes, mas sem sucesso. Palavras ao vento, tentativas em vão. Como um Dom Quixote, lutando contra os moinhos de vento, tento convencê-lo de que a vida não é uma competição atrás da outra, mas parece que a realidade diz o oposto – mesmo porque fiz o favor de oferecer a ele um irmão e conhecemos, desde Caim, o potencial bélico desse amor parental.

E é justamente aí que desvelou-se a grande sabedoria carregada pelos nossos ancestrais, desde os tempos em que nos encontrávamos com a onça bebendo água: a realidade é luta, competição, conflito, o oposto não passa de um sonho de pai. Por isso, é preciso escolher um lado nessa guerra constante entre nosso desejo e o mundo.

Sossego? Tranquilidade? Harmonia? Só no dia em que tivermos comendo grama pela raiz, se é que me entendem. A existência caminha em trilhos para a morte, e até lá é preciso considerar que viver é estar em constante desassossego, no registro de um desejo que nunca se completará totalmente, como diria o velho Freud. Escolher um lado nessa disputa é tomar uma de-cisão, um corte que separa, que deixa de fora muita coisa! Vencerá quem conseguir lidar melhor com isso.

Um pouco de calma, caro leitor, pois às vezes é possível encontrar um oásis no meio do deserto. Um dia de descanso, os sapatos desapertados após a jornada de trabalho, os pés na areia, o disco do Milton Nascimento tocando, uma poesia de Drummond, o beijo da mulher amada, o coração dos filhos batendo na palma da mão ou a cerveja gelada na sexta-feira. Esses são momentos de descanso entre um round e outro. É preciso aproveitá-los como quem observa a brancura dos dentes antes de uma luta contra Mike Tyson.

O Filósofo francês François Julien, em um livro chamado O Tratado da Eficácia, nos oferece uma dica valiosa para lidar com essa luta da vida. Como já sabemos – desde a 5ª série – os Gregos se especializaram na arte da disputa. Espírito mais competitivo é quase impossível. Não é à toa que inventaram as Olimpíadas. Também criaram o termo estratégia, usada nos quartéis, cursos de administração, igrejas e escolas. Mas, apesar disso tudo, parece que os chineses tinham uma outra forma de encarar o combate, e que, possivelmente, levassem mais vantagem do que o modelo dos helenos.

A eficácia dos chineses em relação à disputa não se ligava, necessariamente, a ansiedade para conhecer o inimigo, às estratégias mirabolantes ou na preparação do exército para que ele não errasse. O Imperador Chinês se preocupava, na verdade, em ouvir, observar, sentir o conflito. Portanto, preparar-se para o enfrentamento seria, primeiramente, um movimento de escuta autêntica dos ruídos da luta.

Nessa “arte da guerra” não é a antecipação, o cálculo do maior exército ou o domínio dos meios pelos quais é possível enfrentar o outro ou a realidade que fazem a diferença. É a atitude de quem, diante da invasão, se informa, manda emissários, aguarda, espera e cultiva o momento que possibilita a vitória, buscando a menor ação que produzirá o melhor resultado.

Não se trata de tentar vários caminhos ou especular o que o outro vai fazer, mas abrir-se a uma disponibilidade para observar profundamente a distância entre a realidade e seus próprios afetos que, em geral, podem levar a fazer alguma bobagem.

Por isso que o enfrentamento é um recuo para a percepção do silêncio, do espaço vazio que existe entre as cores do Yng yang e que, com os olhos ocidentais, não conseguimos enxergar, pois estamos focados apenas na bipolaridade simplista dos opostos.

Que a vida é luta já sabemos. Mas, que existe uma arte para enfrentá-la, e esse movimento passa pela escuta daquilo que nos invade, isso devemos descobrir, com prudência e sabedoria, como nos ensina a perspicácia silenciosa dos orientais.

4 thoughts to “ENTRE GREGOS E CHINESES”

  1. Renato, também tenho um filho assim, que respira futebol, todo e qualquer um. Adoro seus textos, suas reflexões, suas analogias e a delicadeza e perspicácia com que descreve as coisas da vida. Parabéns!

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