Vacina pouca, meu bracinho primeiro! A vitória do Homem Cordial

Além da excelente contribuição para a música, o maestro Antônio Carlos Jobim, o Tom Jobim, nos deixou uma frase emblemática: o Brasil não é para principiantes.  Lógico que o teor de crítica está explícito, mas essa é uma sentença que merece várias dissertações, teses e debates acalorados.

Ninguém traduziu melhor essa condição do brasileiro do que o professor Sérgio Buarque de Holanda com seu conceito de Homem Cordial. Por mais que a esquerda universitária tente desconsiderar esse pensamento, dizendo que ele não passa de uma justificativa para desvalorizar o Estado Brasileiro, dando força aos movimentos liberais e outros bla-bla-blás de gente encastelada no conforto das faculdades, o referido conceito é comprovado em todas as camadas sociais. Desdenhar dele, como se ele fosse apenas uma síndrome de vira-latas, é mostrar profundo desconhecimento do seu próprio habitat.

Ao contrário do que parece, o termo cordial não quer dizer necessariamente afeto, sensibilidade ou uma forma de interação com outro. Esse tipo humano é descrito como um egoísta desgovernado. Podem espernear, mas é isso que parecemos ser. A lei até que existe, mas é como se ela não fosse maior que nosso desejo, nosso conforto, nosso amor parental.

Quem conhece o Brasil por dentro, perpassando todas as classes sociais, sabe disso. O sujeito que finge cochilar no ônibus para não ceder o assento preferencial, o serviço de “despachante” para resolver todos os problemas burocráticos, o atestado médico para fazer a 2ª chamada de prova, a solicitação para facilitar algo a pedido de alguém (com sobrenome ou cargo importante) fazem parte de nosso dia-a-dia.

A impossibilidade que o brasileiro tem, ao se tornar cidadão, de se desvincular dos laços familiares gerou o tipo cordial. Nossa intimidade chega a ser desrespeitosa, inclusive o que possibilitou a chamar qualquer um pelo primeiro nome, usar o sufixo “inho” em vários casos e colocar qualquer  “santo de castigo”, presunção que deixou atônitos os primeiros religiosos que aqui chegaram.

Nosso rigor é frouxo. Não há distinção entre o público e o privado. Vivemos como se todos fossem amigos em todos os lugares. Aqui, o Estado é propriedade da família e os homens públicos são formados no círculo doméstico, onde laços parentais são transportados para a esfera da lei. Em síntese, é o homem que tem o coração como motivador de suas relações.

É fácil presenciar as carteiradas no Estádio para entrar no jogo. É comum observarmos os cambistas que, facilitados por alguém, adquirem ingressos aos montes e tentam revender aos torcedores. Isso tudo é a afirmação das vontades individuas perante as regras, esse é o modus operandi na terra brazilis. Não há coletividade aqui. Existem apenas pessoas que tentam, egoisticamente, vencer a escassez. Alguns tentam negar, mas o cidadão comum, que vive na nervura do real, sabe dessa verdade.

E seria diferente com a vacinação? Muitos se espantaram com a quantidade de pessoas que se vacinaram sem o tal direito, de estudantes a prefeitos. Mas isso é apenas a manifestação do sangue cordial correndo em nossas veias patrióticas, começando pelo próprio Poder Judiciário que tentou legalizar a furada de fila. Afinal de contas, Vacina pouca, meu bracinho primeiro!

One thought to “Vacina pouca, meu bracinho primeiro! A vitória do Homem Cordial”

  1. Bom texto. Duas considerações: Quando você aponta as origens de tal conceito nos laços da própria formação familiar é bem interessante e se casa com uma outra classificação denominada de ideologia de classe média, a qual se assenta nas ideias de anticorrupção, perseguição à figura do Estado e serviços públicos, livre isso, livre aquilo, meritocracia, agora mais do que nunca até para tomar vacina né? De fato, não há coletividade, não há direitos trabalhistas, não há sindicato, não há trabalho, há empreendedor, home office, livre mercado de ações, salve-se quem puder.
    Outra questão é sobre essa esquerda acastelada nos seus próprios didatismos, um problema que só contribui para esse retrocesso que estamos passando, porém, é de se perguntar, onde estará acastelada a direita? Meus Deus…

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