O que nos fala a bronca de Diniz?

(Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)

Ao contrário do que muitos pensam, a passagem de uma geração a outra não é um ato natural, determinado por anos ou décadas. Uma geração pode durar 10, 20, 30, 50 anos… Essa é uma contagem que foge à matemática, pois depende de variáveis humanas que não podem ser contabilizadas previamente.

Por isso que fico sempre receoso diante das classificações geracionais: geração Z, geração Y, Geração X, Millennials, Geração ky, enfim… Sem contar que “dentro de uma geração” podem haver tantos modos de viver que a tentativa de definir, de forma geral, pode resultar em um erro grotesco.

Apesar desse grande desafio, uma coisa tem se notado ao passar do tempo como marca contemporânea: o enfraquecimento do mundo adulto diante da emancipação de um certo tipo de vida infantilizado.

Confesso que me assustei com a grande repercussão da bronca de Fernando Diniz ao Tchê Tchê, na partida entre São Paulo e RB Bragantino. Não vi nada demais, a não ser alguém (um adulto) cobrando de um jovem. Aliás, não é à toa que percebemos, de antemão, a diferença apontada: um nome e sobrenome (nada mais adulto que isso) um apelido (nada mais infantil que isso).

Mas o espanto maior foi perceber que a repercussão foi, sobretudo, negativa. Mais do que uma repreensão à beira do campo, o gesto era uma demarcação de autoridade, um grito do mundo adulto. Não entro no mérito de quem está certo ou errado. Para além disso, ressalto a perspectiva de uma sociedade que se espanta quando o exercício da autoridade se faz efetivo. Quero lembrar aos leitores desavisados que “autoridade” nada tem a ver com “autoritarismo”. Este último, parte de um poder que nunca será legitimado, pois não surge como relação, mas como imposição.

Essa decadência do mundo adulto foi apontada por Cristopher Lasch, historiador americano que escreveu A cultura do Narcisismo. A grande sabedoria que podemos tirar desse livro é a de que os adultos não podem ser furtar em assumir seu papel, como uma espécie de cola entre as gerações.

Sei que é romântico imaginar uma sociedade totalmente horizontalizada, com as crianças no poder e tudo mais. Mas uma sociedade orientada dessa forma caminha para seu fracasso. E para que fique claro: este não é um texto que defende a Revolução, pois todas elas construíram adultos opressores e sanguinários, unidos por partidos tribais, que dispensaram o poder da palavra e assumiram o gesto fálico das armas.

Por isso que a liberdade nunca está descolada da responsabilidade. Muitos suportam o mundo (esses são os adultos) para que outros possam, durante certo tempo, gozar do mundo (essas são as crianças). Mas, notem a dimensão do “certo tempo”.  É preciso que haja uma interdição, uma castração, um limite, pois ensinar que o prazer não pode ser eterno é tarefa fundamental para uma sociedade minimamente sadia.

Édipo só busca afirmar a si mesmo quando Laio, seu pai (um adulto), pretende interromper o seu caminho. Édipo só pode superá-lo na medida em que ele busca forças, dentro de si, para vencer essa interdição. É na tensão que nos fazemos melhores, não no conforto eterno da infância atemporal.

Sabe aquele sujeito que chora diante da primeira bronca do chefe? Que quer se matar porque perdeu a namorada? Ou que mata o outro só porque ele torce para um time diferente? Esse sujeito nunca foi interditado, não sofreu a limitação dada pelo princípio de realidade. Por isso ele não dá conta, não suporta o mundo, pois é incapaz de suportar a angústia de ser “si mesmo”.

Essa não é uma questão de prazer, mas de responsabilidade. Pois ser adulto é assumir a liderança na continuidade da vida, na saúde das relações, na reflexão sobre as construções morais. É de responsabilidade do mundo adulto a conservação do próprio mundo, como lugar de convivência ética, conforme nos aponta Hannah Arendt, umas das pensadoras mais importantes da contemporaneidade. Conservar a República como Res – coisa – Pública – de todosessa era a tarefa que toda criança recebia na cultura greco-romana.

Por isso que educar é uma responsabilidade ética, compromisso do mundo adulto para que toda a construção civilizatória não caia no vazio. Isso não pode ser confundido com permissividade amistosa. A cobrança, a tensão, a responsabilidade pelo legado faz parte da construção de uma sociedade que deseja caminhar para frente. Parece contraditório, não é? Mas é o movimento do arco e flecha. É preciso uma grande força contrária para que a tensão possa atingir o máximo de sua potência e, assim, cumprir a meta.

Espero que o leitor e a leitora não caiam na cilada de pensar no mundo adulto apenas pela relação com a idade. Você, assim como eu, deve conhecer meninos e meninas de 15 anos que são (ou foram) arrimo de família (termo meio em desuso no mundo narcísico) e garotinhos e garotinhas de 40 anos em plena adolescência, jogando videogame na casa dos pais e reclamando pela falta do achocolatado.

É preciso a sabedoria do mundo adulto para equilibrar a balança do vigor infanto-juvenil, mas é preciso que esses papeis sociais fiquem bem claros, definidos. Caso algum lado da balança pese mais que o outro, cairemos no desequilíbrio, típico das civilizações que se perderam. Uma sociedade acéfala é aquela que abdicou de sua autoridade moral, uma geração ignorante é aquela que despreza a sabedoria ancestral.

É por essas e outras que devemos fechar com Fernando Diniz, Procópio Cardoso, Telê Santana e por aí vai… É preciso cobrança, tensão, responsabilidade. Do contrário só encontraremos, ao longo da vida, com Tchês-Tchês e seus Mi-Mi-Mis.

6 thoughts to “O que nos fala a bronca de Diniz?”

  1. Concordo com o autor do texto, muito bem colocado por sinal. Porém não consigo ter simpatia por um cara, que mesmo sabendo que está cercado por microfones e câmeras, usa de toda sua falta de educação e respeito com as pessoas que estão o assistindo, sim, porque quando ele falta com respeito com um atleta em campo, está desrespeitando também quem o assiste. Esse cara deveria ter uma aula de educação e respeito para aprender que palavrões de baixo calão, prejudicam a educação de crianças e jovens que gostam de assistir futebol na TV. Por causa desse técnico, perdi toda simpatia que tinha pelo time.

  2. Ok. Texto muito bom, que relata bem os conflitos sociais.
    Porém, retornando a questão do Diniz e o Tchê-Tchê ,
    até agora não entendi muito bem o que o Tchê-Tchê Fez para levar a bronca???

  3. Achei o texto muito bom e também achei adequado o comentário do Gualter. Diniz abusa dos palavrões na beira do campo e nos atrapalha na educação dos filhos. Sempre prezo pelo tratamento com respeito e dignidade.

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